sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A biografia literária

Mais de uma vez, a querida Van Prates aconselhou-me a ler Os Realistas, do crítico inglês C. P. Snow, livro que retrata a vida e a obra de oito dos mais importantes romancistas da literatura universal. Sempre evitei procurar descobrir maiores detalhes da vida pessoal de um escritor antes de conhecer sua obra com profundidade. Jornalistas culturais, biógrafos e mesmo acadêmicos respeitados costumam usar-se da intimidade do artista, com toda ênfase possível às suas preferências sexuais e políticas, a fim de recriar uma imagem do escritor que, inconscientemente ou não, acabamos incorporando à nossa primeira avaliação de sua obra.

Detalhes desimportantes da biografia de um artista (como a informação de que Kafka perdeu a virgindade aos vinte anos) afetam, de uma maneira ou outra, a análise de um leitor mais ingênuo. Ou estarei sendo rígido? Sei que é praticamente impossível desvincular a imagem histórica que temos de Shakespeare ou Dante ao lermos suas obras, mas considero prejudicial que alguém leia, por exemplo, O Retrato de Dorian Grey com a pré-concepção de estar diante do livro de um escritor homossexual, quando as preferências íntimas de Oscar Wilde nada interferem na qualidade estética e literária de um dos grandes romances da história da literatura inglesa.

Em um de meus trechos preferidos de O Fantasma Sai de Cena, de Philip Roth, Amy Bellete, amante do falecido escritor E. I. Lonoff, o mentor intelectual do protagonista Nathan Zuckerman, escreve uma carta para o editor do caderno literário do The Times. Selecionei alguns trechos:

“Antigamente as pessoas inteligentes usavam a literatura para pensar. Esse tempo passou.”

“Hoje em dia, a maneira mais comum de utilizar a literatura, tal como se vê nas páginas de cultura dos jornais mais esclarecidos e nos departamentos de letras das universidades, é tão avessa aos objetivos da literatura criativa e às compensações que ela proporciona ao leitor de mente aberta, que seria melhor se a literatura não tivesse mais nenhuma utilidade pública.”

“O seu jornalismo cultural não passa de fofocas de tabloide disfarçadas de interesse pelas artes.”

“É impressionante a importância que os jornalistas culturais dão às barreiras da privacidade quando o que está em jogo é o romance.”

[Com ironia] O escritor passa anos trabalhando no texto, aposta tudo que tem no seu trabalho, escreve cada frase sessenta e duas vezes e no entanto não tem nenhuma consciência literária, compreensão nem meta geral. Tudo o que o escritor constrói meticulosamente, juntando trechos e detalhes, não passa de um truque, de uma mentira. O escritor não tem nenhuma motivação literária. Não tem interesse em representar a realidade. Suas motivações são sempre pessoais, e geralmente vis.”

“Se você disser a um jornalista cultural: ‘Dê atenção apenas ao conto em si”, ele não terá o que dizer.

“Se eu tivesse um pouco de poder que tinha Stálin, eu não o desperdiçaria silenciando os escritores criativos. Eu silenciaria aqueles que escrevem sobre os escritores criativos. (...) Eu deixaria os leitores a sós com os livros, para que tirassem suas próprias conclusões”.

Entendo, obviamente, a necessidade documental de se reconstituir a biografia dos grandes escritores da literatura. Um homem apenas é grandioso quando se torna histórico. Mas há de se exercer tal prática com responsabilidade e prudência. Como leitor, procuro sempre discernir a ideologia pessoal da obra do artista. Ezra Pound era ligado ao partido fascista de Benito Mussolini, mas em quais aspectos isso interfere na qualidade lírica de Os Cantos? Um fato como esse é repulsivo e tem grande validade na documentação histórica do poeta, mas a análise de sua obra não deve se ater exclusivamente a isso. Considero, por exemplo, um grave erro de conduta alguém ler a maravilhosa Biografia de James Joyce, escrita por Richard Ellmann, antes de ler, ao menos, O Retrato do Artista Quando Jovem, um dos mais famosos Bildungsroman, essencial na compreensão da obra do irlandês.

A carta de Amy Bellete sugere que a obsessão com a vida de um escritor negligencia a real utilidade da literatura, que é a reflexão subjetiva. É esclarecedor saber que Kafka teve um relacionamento angustiante com o pai, mas acreditar que O Processo, O Castelo e A Metamorfose são meramente obras representativas de tal relação e só foram criadas porque Kafka cresceu sob uma educação opressora é desprezar a genialidade do caráter universal de seus livros. Supor que um escritor brilhante como Kafka seja movido pela necessidade e urgência de expressar suas mais íntimas emoções e traumas é de uma ingenuidade atroz.

C. P. Snow, que, além de crítico, também é romancista, comete alguns desses equívocos. Como adquiri o livro essa semana, li apenas os retratos de escritores que tenho maior familiaridade: os russos Dostoievski e Tolstoi e o francês Proust. Stendhal, Balzac, Dickens, Henry James e o espanhol Galdós completam os oito perfilados. Há várias deduções (como insistir na típica ideia da psicanálise de que a infância de Dostoievski foi deveras deprimente e que isso teria influenciado sua obra posteriormente, ou tentar desmoralizar Tolstoi com uma abundância de suposições a respeito de sua vida sexual) não-comprovadas, mas, na maior parte do que li, o livro é bem instrutivo para quem tem algumas aspirações literárias. Saber que Dostoievski, precisando de dinheiro com urgência, escreveu algumas de suas obras, como O Idiota e O Jogador, com prazos curtíssimos de entrega para seus editores, é um exemplo de fato que interfere efetivamente na análise e apreciação da obra, porque precisamos compreender que a revisão técnica e o apuro na construção de seus personagens foram realizados sob intensa pressão, prejudicando (ou não) o resultado final.

Há, realmente, histórias deliciosas no livro de Snow. Mas são apenas as opiniões pessoais de Snow, segundo suas referências de vida, que retratam esses oito romancistas - conhecidos em todo mundo por encerrarem lições das mais profundas, completas e surpreendentes do espírito humano -, e não uma verdade radical e imutável. Como estudante de jornalismo, aprendi a notar meandros de persuasão que escritores factuais utilizam para exercitar percepções particulares. Criam uma teoria e, posteriormente, manuseiam os fatos para comprová-la. Não é irônico que a obra literária tenha maior caráter de observação e análise social, política e espiritual do que o jornalismo, este último supostamente tão preocupado com a veracidade e a objetividade?

Enfim, aconselho sempre a leitura da literatura em primeiro lugar, e apenas depois as biografias, as críticas e as discussões acadêmicas. Em meu ensaio sobre a sinceridade religiosa, publicado na última edição da Revista Wave, escrevi que as notícias jornalísticas são efêmeras, repetitivas e, mais do que nunca, editáveis e dignas de revisões, enquanto Hamlet, a Bíblia, Guerra e Paz e as Variações Goldberg são criações eternas. Como a revista não tem compromissos com o hardnews ou com falsas polêmicas, procuro sempre publicar textos que, ao menos, se propõem a estimular alguma reflexão no leitor. Mas, ainda assim, o rigor factual e o mínimo de julgamentos precipitados são práticas que pretendo sempre obedecer em meus artigos e reportagens.

A principal ressalva que faço a textos como os de C. P. Snow é a mesma que faço a todo mundo que se acredita capaz de emitir opiniões a respeito de qualquer coisa: nunca devemos usar nossas próprias referências de comportamentos sexuais, políticos ou religiosos para classificar um caráter alheio de exótico ou deplorável. É uma prática injusta e incoerente e, a meu ver, o julgamento precipitado é tudo o que a literatura se propõe a evitar.

P.S.: Tinha a intenção de transformar as observações acima em um artigo para a Revista Wave, usando a recém-lançada biografia de Clarice Lispector, lançada pelo jornalista norte-americano Benjamin Moser, como mote. Mas a preguiça e minha pouca aderência a obra da escritora me impediram de levar a ideia adiante. Não é tudo muito vago e metafísico demais em Clarice, uma suposta profundidade que, no fim, acaba não revelando nada? Talvez seja feminino e sensível demais para mim, mas não me considerem misógino, meninas: agrado-me sobremaneira com Dorothy Parker, Emily Dickinson e Virginia Woolf, dentre outras brilhantes escritoras. Clarice talvez seja tão superestimada porque brilhou em uma área pouco desenvolvida da literatura nacional, que é o romance psicológico. Mas nunca me empolgou de verdade. Aguardo e aceito argumentos contrários.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Missing noughties I

Delays, 'Nearer than heaven' [2004]



you are nearer than heaven
i get the feeling i get nearer by the day
i've seen the people go forever descending
it's when we're all inside
that summer's on the way

we could talk forever, nothing would get done
stake your claim on the morning sun
i get in the way

now i see that you are clearer than heaven

*****

Radiohead, 'Where I end and you begin' [2003]



i can watch but not take part
where i end and where you start
where you, you left me alone
you left me alone.

'x' will mark the place
like parting the waves
like a house falling in the sea.

i will eat you all alive
i will eat you all alive
i will eat you all alive
i will eat you all alive

******

The Cribs, 'Men's Needs' [2007]



have you noticed i've never been impressed
by your friends from new york and london
i'll level accusations like the press
until you realise that you've dressed yourself in tatters

because the man's needs
man's needs
are full of greed
full of greed
a man's needs
man's needs
are lost on me

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Cesar Benjamin ziguezagueou no vira virou

Pouco tenho escrito por aqui nos últimos dias. Desleixo, preguiça, vida particular agradável e até mesmo um pouco de trabalho são os motivos da minha negligência para com os queridos leitores. Mas vejam só, preciso avisá-los que, de sexta-feira para cá, a média de acessos diários da Revista Wave atingiu seu maior índice desde a primeira edição, em fevereiro de 2008. Tudo graças a um discreto perfil de César Benjamin (o homem que acusou Lula de ter ‘subjugado’ o tal ‘menino do MEP’, como você já deve – ou deveria – estar sabendo) publicado em outubro do ano passado e (re)descoberto agora que a polêmica estourou. Para minha grata surpresa, o texto que escrevi era, até então, das poucas matérias na internet dedicadas a entender a história do talvez mais jovem militante e guerrilheiro da história do país.
No perfil, há outra acusação séria relacionada ao presidente.
(...) Junto com Lula, César foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, o PT, onde militou ativamente até romper em 1995.

A desilusão de César para com o partido teve início após a fatídica edição do debate de Lula e Collor pela Rede Globo, famosa por desfavorecer claramente o candidato do PT. Após a exibição do debate, César liderou uma manifestação de protesto nos estúdios da emissora, com mais oito mil militantes. Dias depois, a decepção. Em encontro com Lula, o hoje presidente do país lhe confidenciava ter jantado com Alberico Souza Cruz, um dos editores-chefes do jornalismo da emissora, e juntos, teriam “derrubado três litros de uísque”. O ato pareceu indigno para César, que teria ouvido de Lula a justificativa: “Não vou brigar com a Globo, não é, Cesinha?”.

Após sérias acusações a direção do partido, inclusive a Lula, César iria romper oficialmente com o PT em 1995.
(...)
A ironia é que o "baluarte da verdadeira esquerda" César Benjamin, após toda a decepção descrita acima, tenha permanecido na liderança da campanha de Lula para a eleição seguinte, em 1994, quando ouvira a história da tal tentativa de "subjugação".
Confirma-se, na comédia toda: a estupidez e o mau gosto do presidente Lula em fazer piada a respeito de um estupro; a sacanagem da Folha de S. Paulo em esconder uma declaração obviamente grave em um canto de página; as conseqüências nefastas que a ditadura causou na mente de um garoto que aos dezessete anos já era torturado pelos militares; e o mais importante, meus perfis escritos para a seção personagem da Revista Wave (Kevin Carter, Leila Diniz, Vanja Orico, Fred Astaire, Waldick Soriano, dentre outros) continuam sendo as páginas mais visitadas e elogiadas do site. Às vezes - não sempre - acredito que realmente tenho certo faro jornalístico.
*****
Aproveitando o tempo para escrever, queria comentar que tive, um mês atrás, sérias intenções de escrever um perfil homenageando o falecido Claudinho, faixa do Buchecha, mas a Globo fez o Por Toda a Minha Vida na quinta-feira passada e me dei por satisfeito. Ouvir novamente a nabokoviana “Nosso Sonho” ("seus doze aninhos permitem somente um olhar") quase me levou as lágrimas. Que música linda. Sem falar de "Desinibida" (revitalização funk de "Deixe a Menina, do Chico Buarque), a carioquíssima "Rap do Salgueiro", a versão ixperta de "Tempos Modernos", do Lulu Santos, a hilária "É o Boi", a minha predileta "Conquista" e, é claro, "Só Love", uma das melhores letras da música popular romântica do país. Qualidade de vida, no Brasil, era isso aí. Que saudade!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

'I remember you well in the Chelsea Hotel'

Recordo-me, com freqüência, da noite em que, levemente embriagados com a luminosidade fantasiosa das intermináveis ruas de São Paulo, ela sugerira que dormíssemos em algum hotel qualquer próximo da Avenida Rio Branco. Acolhi a sugestão como uma oferta exótica de erotismo, natural de sua parte, mas, como logo viria a saber, enganara-me. Na rusticidade do quarto nº 36 do Hotel Paulicéia, com seus pisos e paredes de madeira, o ventilador empoeirado e a minúscula janela, além dos amarelados azulejos do banheiro, não havia vivacidade alguma e tudo parecia aludir a um visual anêmico e opaco. A intenção daquela estada, ela confessaria depois, era experimental: como recriar, artisticamente, a memória de uma noite na companhia do amante nos poucos instantes de serenidade do casal em um ambiente incomum para os dois? Como a neutralidade da paisagem afetaria a vida amorosa de duas pessoas que, constantemente, ofendiam-se a respeito de seus círculos sociais próprios?

Durante aquela madrugada, pouco falamos um ao outro. Lembro que ela dizia, aos risos, que deveríamos nos trancar no hotel durante semanas, ou mesmo meses, e apenas sairíamos dali após escrevermos, juntos, um romance a respeito do isolamento. Dormi refletindo como seria tal romance: uma descrição bergmaniana da clausura claustrofóbica da vida a dois ou uma ode a sublimidade da sensação amorosa elevada às últimas conseqüências?

Meses depois, o que noto de mais belo em suas palavras é que, atrás de sua sugestão poética, escondia-se seu ingênuo desejo em transformar o tão necessário e solitário ato de escrever em uma atividade de compreensão e auxílio mútuo. Quão comovente parece-me, hoje, imaginar sua preocupação em me ajudar na angustiante prática de relatar a própria intimidade em um papel branco. Era uma ideia de surpreendente romantismo, antes de tudo. Naqueles dias, porém, eu infelizmente nada compreendera.

domingo, 22 de novembro de 2009

'Cenas de um casamento', Ingmar Bergman

Liv Ullmann e Erland Josephson, Scener ur ett äktenskap [1973]

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Vaidade Renascentista

Portrait of a Young Woman, c. 1480, Sandro Botticelli

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

'Here it comes' 10 years ago

This is a call, a call to all
It goes out to those who've been there
And I should know because I've been
Maybe once a week on Mondays
You should have seen what I've seen
She doubles up and comes back Sundays
And she will come into your heart
It goes on and on and on

Here it comes
Here comes my day in the sun
Here it comes
Here comes my time in the sun

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O desconhecimento de causa é o mal do século

O artigo em destaque da edição 022 da Revista Wave, ainda que tenha me custado menos de um dia para escrevê-lo, é fruto de antigas reflexões. Há alguns dias, notava como, supostamente dependentes do convívio social e, ao mesmo tempo, donos de predileções e particularidades extremamente pessoais na forma como idealizamos o mundo exterior, sofremos com a nossa própria autoconduta. Aflijo-me, por exemplo, quando converso com outras pessoas e meus pensamentos dirigissem-se ao meu interlocutor, projetam-se especialmente a ele, e não são reflexos do meu espírito, porque dizem respeito ao que ele quer ouvir e não ao que eu necessariamente desejaria expressar. À educação, unem-se a timidez e a discrição e também a imensa preguiça e, de maneira nada proposital, agimos simpaticamente; momentos depois, podemos irritar-nos com o desperdício de bondade.

O tema do artigo é a religião, mas a questão da sinceridade da opinião em si, em qualquer formato, é interessante porque, em nossos dias, a verdade nunca é absoluta, radical ou agressiva. Logo, não aprecio muito a opção pela opinião visceral, rápida e, consequentemente, polêmica. É sincero quem opina com desconhecimento de causa? A autenticidade sempre é admirável, mas ela não exclui o conhecimento, muito pelo contrário. Quem lê um livro como O Avesso da Vida, de Philip Roth, e percebe as contra-análises dos personagens, seus prós e contras detalhados de maneira obsessiva, poderá compreender que o julgamento definitivo é sempre incompleto e prejudicial.

O maior benefício da arte (seja na imersão da memória humana em Juventude, de Ingmar Bergman ou na documentação da diversidade social em O Fim e o Princípio, de Eduardo Coutinho, para citar os dois últimos filmes a que assisti) é a capacidade de estimular em cada um de nós a compreensão alheia necessária para a tão desejada harmonia humana. A leitura dos romances, a apreciação da beleza da música, o estudo das condições sociais do próximo: quem se dedica a fidedigna compreensão do que acontece ao seu redor estaria mais propenso a opinar sobre questões cruciais do que aqueles que se consideram donos de uma verdade imutável e irrevogável.

sábado, 7 de novembro de 2009

# Editorial nº 022

[”João Batista Pregando”, de Pieter Bruegel, O Velho, em 1601 - Domínio Público]

Editorial nº 022

Há determinados paradoxos que me perturbam sobremaneira e, não raras vezes, penso em desistir da ideia de editar uma revista cultural. Nas últimas semanas, enquanto definia os textos que estariam presentes na edição nº 22 do site, duas questões – a sinceridade e a autoficção - dominaram minhas reflexões pessoais e procurei estudá-las, em busca não de soluções, mas de suficiente entendimento e análise para expô-las ao querido leitor.

O resultado da primeira reflexão dos tais questionamentos é o texto em destaque desta edição, o Ensaio sobre a Sinceridade Religiosa em Nossos Tempos. A reflexão exposta – que não é pregação, tentativa de conversão ou defesa das doutrinas batistas – propõe-se a demonstrar o embate entre a tradição religiosa cristã e a indefinível condição humana da sociedade contemporânea.

Acredito que o termo sinceridade seja a chave das angústias do homem moderno. Como conciliar as predileções pessoais (artísticas, políticas e religiosas) em uma paisagem que preza pela despersonalização de identidades ideológicas? O dilema não é apenas crer na sinceridade, mas vivê-la, demonstrá-la e permanecer em paz com a própria consciência.

O segundo questionamento apareceu-me como um natural complemento a concepção da sinceridade. A autoficção é um termo criado pelo crítico literário Serge Dubroski na França dos anos 70 para classificar as narrativas confessionais surgidas no seio da instável sociedade da informação e consiste na derrubada das fronteiras entre a natureza e a imitação da natureza.

Ainda que a ideia de autoficção diga respeito a literatura, é possível revisitá-la na prática social. Nós, que criamos e editamos nossos próprios perfis em comunidades virtuais, praticamos o autoengano; desenvolvemos uma persona idealizada (somos aquilo que queremos ser, não o que realmente somos) que é o exato contrário da sinceridade que, supostamente, deveríamos desejar.

Ora, não sou uma pessoa de fácil convivência. Ainda que meus princípios sejam questionáveis pelo próximo, planejo segui-los com a maior fidelidade possível. Deprimo-me quando noto que, pressionado por outras circunstanciais, descumpro tais princípios. Ainda que a pureza dos ideais pareça devaneios de um sonhador, a meu ver, é extremamente admirável aquele que projeta sua sinceridade na paisagem social que vive: viver em paz com a consciência, ainda que em conflito com o mundo externo.

Pois bem, minha sinceridade é, paradoxalmente, repleta de dúvidas e incertezas, mas, naquilo que creio como verdadeiro, usarei a Revista Wave para registrar e documentar. E não há nada de maior certeza que a minha fé cristã. Sob este ponto de vista, a edição nº 22, que quase não existiu, devido ao tormento entre minha verdade e a autoficção, é a mais sincera de todas publicadas até o momento. Espero que o leitor esqueça os preconceitos religiosos e compreenda o espírito e as motivações deste editor, jovem e imaturo, que a cada dia nota que sabe menos a respeito de todas as coisas, mas que acredita piamente em seus ideais.

Antes de concluir, permitam-me uma breve dedicatória ao pastor da Igreja Batista de Marília, Gilberto Stéfano, uma das minhas principais referências intelectuais e espirituais. Obrigado, pastor, pela apresentação da palavra de Deus de maneira fiel e valorosa. E que Deus abençoe a todos nós.

Aquele abraço.

Daniel Faria
Editor-chefe

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Kitsch IV - 'It only happens in my dreams'


I close my eyes, then I drift away
Into the magic night, I softly say
A silent prayer, like dreamers do
Then I fall asleep to dream my dreams of you

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Richard Hawley, o Roy Orbison de Sheffield

Nos últimos dias, indeciso tal qual Meryl Streep em A Escolha de Sophia, refleti muito sobre o futuro da Revista Wave. Decidi prosseguir com atualizações mais constantes, ao menos até fevereiro de 2010, quando o site completará dois anos de vida. Ainda que meus habituais colaboradores estejam às turras com seus TCCs, I’m gonna carry that weight, alone or not.

Para a edição nº 022, estou finalizando um perfil do trovador inglês Richard Hawley. Pouco conhecido no país, o cantor-compositor (definido comicamente pelo site Stereo Subversion como “the ultimate anti-hipster”) tem as melhores referências possíveis: a emoção contida de Nick Drake, a tragédia épica de Scott Walker, o coração dilacerado de Morrissey, as desilusões amorosas de Leonard Cohen e até mesmo o fundo do poço poético de Frank Sinatra em In The Wee Small Hours, o famoso álbum pós-rompimento do Blue Eyes com a exuberante Ava Gardner.

Se soa trágico e melancólico demais para os adolescentes ouvidos indies do querido leitor, saiba que Alex Turner, ao receber o Mercury Prize de 2006 pelo álbum de estreia do Arctic Monkeys, Whatever People Say I Am, That's What I'm Not, que concorria com o belíssimo Coles Corner de Richard, ironizou a conquista: “alguém chame a polícia, Richard Hawley acabou de ser roubado”.

Hawley é de Sheffield, norte da Inglaterra, assim como Turner e Jarvis Cocker, do Pulp. Todos são notórios prosadores, mas Richard é ainda mais lírico. Suas composições versam sobre a solidão, a morte e a dependência química. Truelove’s Gutter, seu último disco, é tenso, contido e absurdamente triste. Abaixo, o vídeo do primeiro single do álbum, “For Your Love, Give Some Time”. No Dia de Finados, com o clima propício, posto a matéria completa.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Silence is easy

Sempre evitei falar. Às vezes desisto no meio de uma conversa. Enquanto falo, escrevo mentalmente o que pretendia de fato dizer. O silêncio é o estado ideal de tudo. Amo a escrita porque concilia linguagem verbal e silêncio.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Kitsch III - 'Be quiet... big boys don't cry'

I'm not in love
So don't forget it
It's just a silly phase I'm going through
And just because I call you up
Don't get me wrong
Don't think you've gotten me
I'm not in love
No, no
It's because

I'd like to see you
But then again
It doesn't mean you mean that much to me
So if I call you
Don't make a fuss
Don't tell your friends about the two of us
I'm not in love

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Retalhos

Li ontem, finalmente, o álbum em quadrinhos Blankets, de Craig Thompson. Após a recomendação do André Forastieri, decidi baixar o original em inglês e não consegui dormir enquanto não terminei as 592 páginas do gibi. É tocante, para dizer o mínimo. Se você, como eu, não se interessa por quadrinhos e pensa que Homem Aranha, Batman e Liga da Justiça são bobagens fantasiosas, Blankets é a leitura perfeita. Escrito por Craig aos 27 anos, quando o autor estava “especialmente inspirado” pelos escritores Marcel Proust e Vladimir Nabokov, a história dialoga com os ditos Bildungsroman, os ‘romances de formação’ da literatura clássica. O livro é autobiográfico e apresenta temas sérios, como a dúvida religiosa, o abuso sexual, a discriminação social e o primeiro amor.

Blankets foi lançado nos EUA em 2003 e recebeu alguma das maiores honrarias do mundo da HQ, como o Eisner e o Harvey Awards nos EUA (2004) e o prêmio da crítica francesa no tradicional Festival de Angoulême (2005). O livro chegou ao Brasil em maio, pela Quadrinhos na Cia., com o título de Retalhos. Pretendo comprar e presentear meus pais e irmãos com um exemplar. A problemática familiar é tratada com uma sensibilidade impressionante.

Aliás, as interseções entre a minha vida e a do protagonista de Blankets são tantas que eu senti imediatamente a empatia. Craig nasceu em uma cidade interiorana no Estado de Wiscosin. A situação financeira de seus pais, membros fervorosos da Igreja Batista, não é das melhores. O irmão mais novo é uma peste. O pastor da Igreja diz frequentemente a Craig que Deus o escolheu para o ministério. No colégio, sente-se deslocado. Apaixona-se por uma menina que tem pôsteres do Radiohead no quarto e que canta “Just Like Heaven”, do Cure, para ele quando dormem juntos. Com o passar do tempo, afasta-se da igreja e começa a questionar certos preceitos religiosos. As situações reconhecíveis se sucedem o tempo todo.

O questionamento da fé é a concepção central do romance. “Muito dos fãs do livro são cristãos devotos, até pastores, que vêem em Blankets um retrato honesto da espiritualidade de alguém”, afirmou o autor. Há certas similaridades com outro livro que terminei recentemente. Indignação, de Philip Roth, também expõe as dúvidas existenciais, sociais e familiares de um adolescente religioso, ainda que haja uma diferença primordial de época (a história de Roth se passa em 1951, durante a Guerra da Coréia; Craig, de Blankets, vive a adolescência no início dos anos 90) nas duas obras. De qualquer maneira, são livros obrigatórios para quem tem entre 18 e 25 anos. Sentir-se retratado de maneira tão singular é deveras reconfortante.

“Queria fazer um livro longo que deixasse de lado as sequências de ação para capturar uma experiência íntima e silenciosa, como a de dividir a cama com alguém pela primeira vez” - Craig Thompson.
[Clique na imagem para ampliar]

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

"Nem Vem Que Não Tem"

Se há algo que eu me arrependo nesta vida é não ter conseguido condições de aceitar o convite do Ricardo Alexandre, ex-editor da Revista Bizz e autor de Dias de Luta: O Rock e o Brasil dos Anos 80, para ajudá-lo na criação do livro Nem Vem Que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal. Ricardo me convidou há quase um ano para colaborar, durantes três meses, na biografia do mítico cantor carioca. Na época, tinha sido indicado para um cargo de assessoria política, o salário – infelizmente, infelizmente - falou mais alto e eu não pude trabalhar em algo que me daria enorme prazer. Money is also a big problem sometimes.
Enfim, amanhã, dia 23 de outubro, o livro será lançado oficialmente e já está em pré-venda na Cultura, Saraiva, Siciliano e Submarino. Também será possível comprá-lo em um stand que a Globo Livros monta no Sesc Pinheiros no final de semana em homenagem ao cantor que começa amanhã e vai até o domingo. Recebi a belíssima introdução da biografia e a capa do livro. Confiram abaixo e peçam seus exemplares. Recomendo veemente, tanto pela qualidade do artista biografado quanto pela capacidade do competente jornalista que é o Ricardo. Já garanti o meu.
Este homem é um Simonal

Em meados de 1969, ao longo de várias semanas, a lendária revista Realidade destacou um de seus melhores repórteres, Mylton Severiano, para acompanhar o dia a dia do cantor Wilson Simonal. Com belas fotos e textos longos, Severiano registrava o auge do sucesso de um artista, aquele que já fazia tempo era “o maior showman brasileiro”, e cuja estrela não parava de subir. O título da reportagem não poderia ser mais apropriado: “Este homem é um Simonal”.

“Ser um Simonal”, naquele tempo, transmitia imediatamente ao leitor todos os atributos que o personagem da matéria alimentava havia quatro anos. O sucesso monumental, comparável apenas ao de Roberto Carlos; a capacidade aparentemente sem fim de gerar sucessos (“Sá Marina”, “Tributo a Martin Luther King”, “Nem vem que não tem” e, avassalador naquela época, “País tropical”); o famoso suingue, que colocava para dançar numa mesma pista a socialite e sua faxineira; o estilo pessoal, com roupas caras compradas na Dijon e do uísque Royal Salute sem gelo e sem água; a capacidade de comandar a plateia como se fosse seu próprio coral de apoio, tanto em uma boate da moda, em seu programa na TV Record, em teatros ou no Maracanãzinho; sua Mercedes do ano, conversível, vermelha e preta como o Flamengo; o menino pobre de Areia Branca que acabou duetando com Sarah Vaughan e arrancando elogios de Quincy Jones em Paris; o Simonal empresário, que montou seu próprio escritório para ter controle total sobre a sua carreira; a imagem poderosa, capaz de ajudar a vender lubrificantes e formicidas da Shell; o homem negro por quem suspiravam as loiras da alta sociedade. Ou, como resumiu o Jornal do Brasil numa série de seis reportagens biográficas: “Aquele cara que todo mundo queria ser”.

Exatos 30 anos depois, em abril de 1999, Wilson Simonal, magro, frágil e envelhecido, está no fundo de uma pequena casa de shows de São Paulo, o Supremo Musical. Protegido pelas sombras, assiste à apresentação do coletivo Artistas Reunidos, do qual fazem parte seus dois filhos homens, Wilson Simoninha e Max de Castro, então se lançando na carreira artística. Naquele dia, Simonal entrou após o início do show e saiu antes que acabasse. Voltou para o carro chorando, porque achava que não podia cumprimentar os próprios filhos em público ou mesmo ser reconhecido junto deles: tinha medo de que a imagem dos garotos ficasse associada à dele e que isso pudesse arruiná-los.

“Ser um Simonal” tinha um significado muito diferente daquele ano de 1969. Significava ser proscrito do ambiente artístico com força e rancor, como nunca havia acontecido antes - e não voltaria a acontecer. Significava ser indesejado por onde passasse, a ponto de fotógrafos se recusarem a fotografá-lo e outros artistas se negarem a pisar no mesmo palco que ele; ser “exilado em seu próprio país”, como definia; ser um espectro, um fantasma, ter sua contribuição apagada da memória oficial da música brasileira - como se milhões de discos não tivessem sido vendidos, milhões de pessoas não tivessem cantado com ele nos shows, nem o assistido pela televisão. Era sinônimo de alcoolismo, impontualidade, amargor e solidão; significava ser mau pai, mau marido, amigo ingrato; um “crioulo que não soube o seu lugar”. E acima de tudo, e mais certo do que tudo isso junto, significava ser um dedo-duro dos tempos do regime militar, um homem que, não contente com a fama e a fortuna, teve o mau-caratismo de “entregar” colegas artistas para os órgãos de repressão do governo militar, que os torturava e os exilava.

Este livro é fruto de dez anos de pesquisa sobre o que significou “ser um Simonal”, ao longo de 62 anos de vida, para o cidadão Wilson Simonal de Castro e para o Brasil. Ao mesmo tempo, este trabalho tenta desvendar como um país inteiro pôde mudar de opinião tão violentamente sobre um de seus maiores ídolos, baseando-se às vezes em fatos, às vezes em lendas e outras vezes em sentimentos complexos como racismo, paixão e inveja. E, claro, investiga nas cicatrizes da infância, na vida pessoal do adulto e na contextualização histórica de sua música os mistérios que levaram à ascensão e à queda de um artista. Talvez o mais completo, certamente o mais simbólico artista que o Brasil já viu - e que, de repente, não quis mais ver.

Ricardo Alexandre
Setembro de 2009

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Somedays

_floral: Quais as vantagens do horário de verão? A principal, a meu ver, é chegar à UNESP às dezenove horas e encontrar o campus vívido e iluminado, em plena primavera florida, “tal qual Massachusetts”, comparou um irreverente amigo que, obviamente, nunca esteve em Massachusetts. Além disso, o clima em outubro ainda é agradável, antes do mormaço e desgaste físico que o verão oferece, e encontro maior disposição para atravessar noites em claro e maior inspiração para reorganizar alguns objetivos. Recebi, aliás, um convite quase irresistível para um projeto literário de Coimbra, em Portugal. Como sinto falta, às vezes, de um diploma de Letras.

_solidariedade: Sinto-me esperançoso. Nos últimos dias, ao meu redor, as notícias ruins pareciam se suceder: o câncer, as tragédias familiares, o desprezo à miséria e todos os sacrilégios de um mundo absurdamente negativo. Agrada-me, porém, pensar que, ainda que raros e esparsos, há quem entenda o auxílio social não como tese acadêmica, mas como um voluntarismo prático e ativo. Contornar situações aparentemente irremediáveis, usando-se da solidariedade humana, como queria Camus em A Peste, através do Dr. Rieux, sempre será da maior utilidade.

_carregar a cruz: A vida é um fardo. Nos Salmos são bem aventurados aqueles que não andam segundo o conselho dos ímpios nem se detém no caminho dos escarnecedores. No Novo Testamento, Jesus pregava aos funcionários públicos corruptos, às meretrizes, aos pescadores, à toda sorte de pecadores. Eu quero alguma ascensão da alma que me permita conciliar todos os dilemas da minha mente ora sã, ora profana, e evidenciar se suporto o caminho messiânico ou se medito na lei do Senhor dia e noite.

_deus e o diabo: A doutrinação antiviolência de Tolstoi, sua busca pela sublimação espiritual, seu despojamento de riquezas matérias, independentemente de seu fanatismo cristão, é, e sempre terá caráter muito mais benéfico ao leitor que a intolerância religiosa de um Saramago, esse ateísta fanático, esse comunista inveterado que opta pelo radicalismo para expor ideias tão antiquadas em seu novo livro, Caim (Companhia das Letras). A indignação é justa. O ódio, não.

_há quem preze pela erudição: Ontem, li o conto Olho, da Myriam Campello, e fiquei encantado. Não seria exagero compará-la a Nabokov, em Lolita. Ainda que o tema não seja pedofilia, é quase tão incomum quanto: o amor sexual entre irmãos. Há erudição, frases elegantes e sensuais, criatividade estética de primeira grandeza. Assumo minha ignorância: conhecia Myriam apenas como tradutora. Li seu texto na coletânea 100 Melhores Contos Brasileiros do Século (Objetiva, 2000) e, ao lado de Estão Apenas Ensaiando, do sempre ótimo Bernardo Carvalho, são os únicos realmente admiráveis dentre os contos selecionados das décadas de 80 e 90. O resto é bem dispensável.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O óbvio ululante

joseserra_ O time do Lula, o meu e o do Kassab perderam, no fim-de-semana. Logo, todo mundo guardando a corneta...

Do twitter do governador, manhã de segunda. A vida - e a política - é pura semiótica. Signos e significados: pai Lula é corintiano, Serra é palmeirense e o Kassab... bem, o Kassab só poderia ser são paulino. Aliás, outras coincidências do mundo do futebol: Andrés Sanchez, presidente do Corinthians, é filiado ao PT. O Marco Aurélio Cunha, dirigente do time do Richarlyson, é vereador paulistano pelo DEM. I said, "confie apenas em torcedor do São Paulo do sexo feminino, porque é o que faz sentido". Para bom entendedor, meia frase.

domingo, 18 de outubro de 2009

Canção de Domingo, "So Long, Marianne"


Culpa Cristã
Well, you know that I love to live with you

But you make me forget so very much
I forgot to pray for the angels
And then the angels forget to pray for us

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

25 Melhores Músicas Brasileiras

Em 2006, quando decidi criar um blog, a intenção primordial era falar sobre música. Acompanhava lançamentos, entrevistava artistas novos e publicava artigos sobre o “atual estado da música brasileira”. Quando notei que poucos artistas da década que se encerra realmente me interessavam e que preferia ouvir o Amoroso do João Gilberto pela milésima vez do que tentar descobrir algum valor nos cidadãos instigados da vida, percebi que meu futuro como crítico musical era improvável. O que não me impede, porém, de relatar minhas preferências. Quando a Rolling Stone de outubro estampa na capa a chamada “100 Maiores Músicas Brasileiras”, sinto-me tentado a criar também uma lista com as minhas 25 canções favoritas. De início, pensei em uma lista de dez, mas, obviamente, não seria suficiente. Aliás, 25 também não é um número justo: deixar João Donato, Walter Franco, Racionais MCs, Los Hermanos e tantas outras de João Gilberto de fora é de machucar o coração.

Segue abaixo a lista. Não são as mais importantes ou representativas, mas as canções que me emocionaram e ainda me emocionam nesses vinte e dois anos de vida. O nome do autor da canção está em colchetes.

1. “Oração da Mãe Menininha”, Maria Bethânia & Gal Costa [Dorival Caymmi]


2. “Chega de Saudade”, João Gilberto [Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim]

3. “Águas de Março”, Elis Regina e Tom Jobim [Antônio Carlos Jobim]


4. “Wave”, João Gilberto [Antônio Carlos Jobim]

5. “Você Não Entende Nada/Cotidiano”, Caetano Veloso e Chico Buarque

6. “Esotérico”, Doces Bárbaros [Gilberto Gil]


7. “Mora na Filosofia”, Caetano Veloso [Monsueto]

8. “Filhos de Gandhi”, Gilberto Gil e Jorge Ben [Gilberto Gil]

9. “Detalhes”, Roberto Carlos


10. “Felicidade”, João Gilberto [Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim]

11. “Alegria, Alegria”, Caetano Veloso


12. “Construção”, Chico Buarque

13. “Baby”, Gal Costa

14. “Cara Bonita”, Nara Leão e Carlos Lyra [Carlos Lyra]

15. “Maricotinha”, Dorival Caymmi


16. “Volta Por Cima”, Maria Bethânia [Paulo Vanzolini]

17. “Refazenda”, Gilberto Gil

18. “Conversa de Botequim”, Noel Rosa

19. “Travessia”, Milton Nascimento [Milton Nascimento e Fernando Brandt]


20. “Sá Marina”, Wilson Simonal [Antônio Adolfo e Tibério Gaspar]

21. “Juventude Transviada”, Luiz Melodia

22. “Canteiros”, Fagner [Fagner e Cecília Meirelles]

23. “Na Estrada”, Marisa Monte [Marisa Monte, Nando Reis e Carlinhos Brown]

24. “Sim”, Cartola


25. “Com Mais de Trinta”, Claudia [Marcos Valle]

"O Brasil é na verdade um país sério demais"

Os cartunistas Arnaldo Branco e Allan Sieber são os novos roteiristas do Casseta & Planeta, da TV Globo, segundo a coluna "Outro Canal" da Folha de S. Paulo. Os dois já trabalharam juntos na lendária Revista F., a última tentativa de se fazer uma publicação humorística decente no país. O gaúcho Sieber é famoso por ilustrações na Playboy e no Folhateen. Já o carioca Arnaldo, criador dos personagens Capitão Presença e Joe Pimp, é responsável pelas sarcásticas tirinhas do Mundinho Animal do G1 e mantêm uma coluna no site Zé Pereira. Entrevistei o último para a Revista Wave em maio do ano passado. Confira aqui.