terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Finest gold, a long time ago


What tongue can her perfections tell
In whose each part all pens may dwell?
Her hair fine threads of finest gold
In curled knots man's thought to hold;
But that her forehead says, "in me
A whiter beauty you may see."
Whiter indeed; more white than snow
Which on cold winter's face doth grow.

Sir Philip Sidney, What tongue can her perfections tell?

Feia balada polifônica da moça incapaz de Tverskaya


Atormento contínuo, autoflagelo;
Atípica consciência de mim mesmo.
Desprazer. Tensão torturante,
Letras a retardar, demoram a aparecer
Olhos semicerrados, compenetrar;
Páginas e páginas:
Teorias acadêmicas, romances históricos, críticas literárias, declaração de princípios

- Um mundaréu beligerante a zombar,
Despojar, às traças deixar
Os resquícios de imaginação (que)
Solitárias e reclusas caminhadas
Em praças públicas assobradadas (por)
Galhos retorcidos (e)
Íngremes paralelepípedos
Pavimentaram (nos últimos anos da adolescência) -

Finalmente, frente a frente
O papel branco, absoluto, a página branca
Memória fugidia confunde a imaginação
Resta a tensão
A conclusão inevitável,
Inadiável: não estou pronta
(Apta? Inspirada? Tecnicamente aperfeiçoada?)
Ofício nobre demais para uma vagabunda.

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*Poema enviado por uma amiga, Vera Vladimorovich, definido por ela como “realização sofrida da arte de escrever”. Ou seja, metalinguagem. Ou seja, bobagem.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Três vezes Oscar Wilde


_ Requiescat, um dos mais belos poemas jamais escritos: delicada ode à memória da irmã de Wilde, Isola Francesca, morta aos dez anos de idade, em 1866, quando o escritor tinha apenas vinte e três anos e ainda vivia na casa nº 1 da Merrion Square, em Dublin. Tristeza descrita sem amargura, beleza raras vezes superada:

Tread lightly, she is near
Under the snow,
Speak gently, she can hear
The daisies grow.

All her bright golden hair
Tarnished with rust,
She that was young and fair
Fallen to dust.

Lily-like, white as snow
She hardly knew
She was a woman, so
Sweetly she grew.

Coffin-board, heavy stone
Lie in her breast,
I vex my heart alone,
She is at rest.

Peace. Peace, she cannot hear
Lyre or sonnet,
All my life’s buried here,
Heap earth upon it.

*******************

Na prisão de Reading, Wilde escreveu longa carta ao Lorde Alfred Douglas, de quem era acusado de ser amante. A carta hoje é conhecida como "De Profundis", e é uma espécie de apologia e confissão geral, além de conter alguns dos melhores escritos místicos de toda sua obra. Sobre Jesus Cristo, Wilde escreveu:

“Seus milagres me parecem tão extraordinários quanto a chegada da Primavera, e igualmente naturais. Não encontro a menor dificuldade em crer que o encanto de sua personalidade era tamanho que sua simples presença era capaz de trazer paz às almas angustiadas, e que aqueles que tocavam suas roupas ou suas mãos esqueciam a dor: ou que quando ele passava pela estrada da vida pessoas que nada conheciam dos mistérios da vida os viam claramente, e outras, que se haviam mostrado surdas para todas as vozes menos a do Prazer, ouvissem pela primeira vez a voz do Amor, e a achassem ‘tão musical como o alaúde de Apolo’; ou que as paixões más fugissem à sua chegada, e homens cujas vidas tediosas e sem imaginação tivessem sido uma espécie de morte se erguessem como que das tumbas quando ele os chamava: ou que quando ele pregava nas encostas a multidão esquecesse a fome, a sede e os cuidados do mundo, e que para seus amigos, que o ouviam quando ele se sentava para comer, a comida grosseira parecesse delicada, e a água adquirisse o sabor de um bom vinho, e toda a casa se enchesse dos perfumes e da doçura do nardo”.

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No magnífico conto-ensaio O Retrato do Senhor W. H., que procura desvendar a quem seriam destinados os famosos e intrigantes sonetos de Shakespeare, o autor tece observações sobre Estética e Beleza cujo encanto apenas seria comparado ao que Proust criaria anos depois em sua obra-prima. Veja esta definição, tão preciosa, da mutável sinceridade do artista, criada por Wilde:

Nunca é impunemente que os lábios de alguém pronunciam a Liturgia do Amor. As palavras tem seu poder místico sobre a alma, e a forma pode criar o sentimento do qual deveria ter nascido. A própria sinceridade, a sinceridade ardente e momentânea do artista, é muitas vezes resultado do estilo, e nesses raros casos de temperamentos refinadamente suscetíveis à influência da linguagem, o uso de determinadas frases ou modos de expressão pode incitar o próprio pulsar da paixão, pode fazer correr nas veias o sangue rubro e pode transformar em energia sensual o que na origem fora apenas um impulso estético, um anseio artístico.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Keep me in line

Toda vez que inicio algum texto para postar aqui, acabo considerando o tema ou a ideia realmente interessante e faço algumas anotações para, futuramente, extendê-lo e desenvolver um ensaio ou algum artigo com maior cuidado de pesquisa, e opto por não publicá-lo no blog. Tenho diversos esboços, diversos conceitos, todos soltos em cadernos e arquivos. Passo mais tempo a reescrever do que propriamente escrevendo. Sei que tamanho esmero tem prejudicado meu site: desde novembro que não publico textos inéditos na Revista Wave. Não atravesso um bloqueio criativo, já que toda vez que tento escrever, agrada-me o resultado. Mas tenho trabalhado excessivamente com fragmentos, teorias compactadas em um único parágrafo e sofro para tornar as partes em um todo, unir os conceitos em uma ideia final. Ou seja: não consigo escrever com pressa e nunca acho que o texto mereça ser publicado. Peço desculpas aos leitores. Prometo que isso vai mudar. Exigência em excesso ainda vai me tornar um J. D. Salinger vivo, recluso e solitário. E, o que é pior, antes de escrever meu The Catcher In The Rye e me tornar um escritor famoso por permanecer durantes décadas sem publicar uma única linha.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

E então recebi esta carta:

"Meu caro amigo,

Quando há falta de afeições, quando há a sensação de impossibilidade de se preencher o vazio, e quando, movidos pela imaginação, interrompemos a clausura, notamos que, sucumbidos por um desejo que não irá durar e que sequer ocupa algum lugar que não a periferia há muito abandonada na memória, retornamos ao mesmo princípio que nos guia naqueles momentos não-excepcionais - mas com um fator adicional -: a ingratidão.

A satisfação imediata, como um vício que a cada dia torna-se mais ameaçador mas também mais rotineiro, nunca deveria sobrepujar a autoconcentração e a análise pessoal, construída em anos e anos de desamores, decepções, desgastes familiares, desgostos sociais.

Em um esplendoroso rosal, em que as roseiras renovam, a todo tempo, uma beleza aguda e imensurável, mas que, por pertencer ao nosso jardim, já não nos oferta a impressão causada em olhos virgens a tais encantos, acabamos por negligenciá-lo em favor da plantação de orquídeas ou de magnólias de outro dono? Talvez: o prazer do novo e do inesperado é a maior provocação que as vidas preguiçosas e seguras podem sofrer. Mas e quando sou eu, exatamente eu, quem plantou as orquídeas e as magnólias, que as fizeram crescer, que aspirou seu aroma incontáveis vezes, que suspirou ao seu desabrochar?

Agora, meu rosal é banal, e as outras flores são exóticas, mas houve um tempo em que desejei a rosa como se deseja um sonho de infância. Das flores que não me pertencem, há fragmentos de uma alegria irrecuperável; das minhas rosas, há um todo que, ainda belo, ainda aprazível, já não faz esconder tantos espinhos. Quão infeliz eu sou!

Olhe por mim. Cuide de remeter resposta, repleta de referências eruditas, de aforismos filosóficos, traga-me mesmo a sabedoria popular, dos botecos e estádios de futebol, mas olhe por seu amigo. Não se desfaz uma vida assim.

De seu prezado, _____________. "

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Ignorance is bliss

Em A clockwork orange e em Enderby, principalmente, há um persistente tom de chacota para com a cultura da juventude e sua música. Existe alguma coisa de bom nela?

Desprezo tudo que é obviamente efêmero, e no entanto é tratado como se possuísse alguma espécie de valor supremo. Os Beatles, por exemplo. A maior parte da cultura da juventude, principalmente a música, é baseada no pouco conhecimento da tradição e, com frequência, eleva a ignorância à condição de virtude. Pense nos musicalmente ignorantes que se estabelecem como "arranjadores". E a juventude é tão conformista, tão pouco preocupada com valores dissidentes, tão orgulhosa de ser em vez de fazer, tão segura de que ela e somente ela sabe.

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Entrevista com Anthony Burguess, conduzida por John Cullinam, publicada na Paris Review, nº 56, primavera de 1973 e republicada no livro Os escritores 2: as históricas entrevistas da Paris Review. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Sobre a educação universitária

O trecho abaixo é parte dos diálogos mantidos entre os professores universitários John Shade e Charles Kinbote, personagens do livro Fogo Pálido, de Vladimir Nabokov, anotados por Kinbote, editor de uma poema póstumo de Shade. Fogo Pálido, de 1962, é uma obra baseada em experiências do autor como lente da Universidade de Cornell, na cidade de Ithaca, Nova York.

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Falando sobre as provas dos estudantes: - Geralmente sou muito benevolente. Mas há certas coisinhas que não perdoo. - Kinbote: Por exemplo? – Não haver lido o livro exigido. Ou havê-lo lido como um idiota. Ou ter procurado símbolos no livro; por exemplo: “O autor usa esta imagem admirável,
folhas verdes, porque o verde é o símbolo da felicidade e da frustração”. Também tenho o hábito de baixar catastroficamente a nota quando o aluno usa as palavras “simples” e “sincero” num sentido encomiástico; exemplos: “O estilo de Shelley é sempre muito simples e bom”, ou “Yeats é sempre sincero”. Isso é bastante comum e, quando vejo um crítico falar da sinceridade de algum escritor, sei que ou o crítico ou o escritor é um idiota. – Kinbote: - Mas, ao que eu saiba, essa maneira de pensar não é a que ensinam no ginásio – É aí que se devia começar a limpeza. Deveria haver trinta especialistas para ensinar às crianças trinta matérias, e não uma professorinha atarantada que lhes mostra a fotografia de um campo de arroz e diz que isso é a China, porque não sabe nada da China, nem de coisa alguma, e é incapaz até de explicar a diferença entre latitude e longitude. – Kinbote: - É, concordo.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

The hardest choice

“O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tenta saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.”

Ítalo Calvino, em As cidades invisíveis

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Confissões - O Questionário Proust

Não criei um formspring porque decidi, em resolução tomada na metade de 2009, não mentir mais. Ou, ao menos, ser sincero sempre que questionado a respeito de mim mesmo. E ainda tenho muito a esconder. Logo, assim como não sou corajoso o suficiente para disputar atenção no twitter, também não tenho a indulgência necessária para atender anônimos; meus amigos íntimos sempre poderão perguntar-me o que quiserem e serão respondidos, sem que eu tenha necessariamente de expor minhas particularidades a quem não me interesse. No fim, é ou um jogo de comadres, com intenção humorística, ou um exercício de covardia gratuita verdadeiramente desagradável. Ou puro narcisismo.

Mas como ainda não existe nada tão objetivo na compreensão do próximo que a velha entrevista, o ancestral jogo de perguntas e respostas, decidi tornar à baila uma brincadeira típica dos salões aristocráticos europeus da Belle Époque, uma moda cuja origem remota à Inglaterra vitoriana, chamada Confissões. Consiste em um questionário de 29 perguntas - que se tornariam, posteriormente, uma espécie de padrão para entrevistas jornalísticas – que entretinha convidados em festas, entre eles o escritor francês Marcel Proust, cujas respostas concederiam tamanha fama à brincadeira que esta ficara conhecida como "O Questionário Proust".

O futuro escritor respondera as Confissões pela primeira vez em 1886, então com treze anos de idade, em uma festa no salão de sua prima Antoinette. Aos vinte anos, quando servia o exército, responderia novamente. Muito do que se conhece de Proust, ainda hoje, parte-se de deduções e apurações baseadas neste questionário. Não creio que seja necessário elogiar a maturidade e o bom gosto do francês em suas respostas (reproduzidas, em inglês, no Mineiras, Uai!), já que meu leitor habitual sabe que Proust (e Ingmar Bergman, e João Gilberto, e Leonard Cohen) é provavelmente o nome mais citado nesse blog. Tenho imensa vontade de repetir algumas de suas respostas, mas tentarei ser, além de sincero, original. Àqueles que possuem blog, ou mesmo o formspring, e se interessarem em brincar das Confissões, avisem-me.

Confissões

1. Qual a sua mais marcante característica?
Elogiam constantemente minha educação e minha compreensão para com questões alheias. Considero-me inteligente, mas não tanto quanto poderia – ou deveria - ser. Mas a satisfação em compreender detalhes da minha própria espiritualidade é a característica que mais aprecio, ainda que seja uma qualidade deveras egoísta.

2. E qual considera seu maior defeito?

Diria que a intolerância, mas não a considero exatamente um defeito. Não me considero orgulhoso, mas há quem ache. O que realmente me desagrada é essa distração e dispersão constante de pensamentos. Minha frágil habilidade de concentração em momentos de real importância, aliada a uma vulgar timidez, tem atrapalhado minha vida.

3. A característica que você mais admira em um homem?
A educação.

4. A característica que você mais admira em uma mulher?
A beleza.

5. O que você mais aprecia em seus amigos?
Nos selecionáveis ou nos indissociáveis? A perspicácia em me compreender e, principalmente, me perdoar. E a educação. E a beleza.

6. Qual é a sua ocupação favorita?
Deitar à toa.

7. Qual é sua concepção de felicidade?
Tive momentos amorosos de uma felicidade quase inexplicável, de exigências mínimas, e que, hoje, me parecem inalcançáveis. Era extremamente feliz, e minha concepção de felicidade parte da descrição daqueles momentos. Creio que é impossível definir uma felicidade independente do conceito do amor recíproco.

8. Qual seria a maior das tragédias?
Perder a memória.

9. Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo?
Ronald, o filho do Ronaldo Fenômeno. Brincadeira. Acredito que o Lionel Messi, do Barcelona, que tem a minha idade. Sou um futebolista frustrado.

10. E onde gostaria de viver?
Em Nova Iorque, nos anos setenta. Ou no Rio de Janeiro do começo dos anos sessenta, antes do Golpe Militar de 1964. Hoje em dia, queria ter a experiência de viver em Berlin ou em Tókyo.

11. Qual a sua cor favorita?
Azul.

12. Qual a sua flor predileta?
A papoula.

13. Qual seu pássaro preferido?
Se eu responder que é o gavião, serei acusado de excesso de corintianismo ou de excesso de mau gosto?

14. Quem são seus autores favoritos?
Proust. Tolstoi, logo abaixo. Depois, Kafka, Wilde, Nabokov e Tchekhov. E Philip Roth e Saul Bellow. No cinema, Bergman, acima de todos. Mas também Federico Fellini, Woody Allen, François Truffaut e David Lynch.

15. Quais os poetas de que mais gosta?
Li O Paraíso Perdido, de Milton, em inglês. Jamais será superado. Poesia, na maior parte das vezes, apenas pode ser realmente apreciada na língua original. Logo, minha preferência por poetas de língua inglesa, como T. S. Eliot e Keats.

16. Quem são seus heróis da ficção?
Acho Hamlet um tanto afetado, mas é a síntese do herói intelectualmente ativo. Liévin, o alter-ego de Tolstoi em Anna Karenina. Raskolnikov. Nathan Zuckermann, de Philip Roth. E o Dale Cooper, da série de televisão Twin Peaks.

17. E as heroínas?
Odette de Crécy, ainda que não seja exatamente uma heroína. Ana Serguêievna, a dama do cachorrinho. Lolita, é claro. Marianne, a personagem de Liv Ullmann em Cenas de um Casamento, de Bergman. E a Charlotte, interpretada por Scarlett Johansson, de Lost in Translation.

18. Quem são seus compositores prediletos?
Compositor popular pós-Beatles, Leonard Cohen. Antes, os irmãos Gershwin e Cole Porter. Do que conheço de música erudita, as Variações Goldberg farão minha devoção a Bach durar toda a vida. Debussy também é fantástico.

19. Quais pintores você mais aprecia?
Admiro as mulheres do renascentista italiano Sandro Botticelli. Mas, em geral, aprecio os impressionistas Monet e Renoir.

20. Quem são seus heróis na vida real?
Não tenho heróis. Admiro os pastores batistas John Hatcher, Felix Hussain e Gilberto Stéfano. Meus pais. E todos os artistas citados nas respostas acima.

21. Quem são suas heroínas prediletas na História?
Comovo-me, sempre, com a vida de Anne Frank.

22. Qual é sua palavra favorita?
Memória.

23. O que você mais detesta?
A necessidade de opinar a todo custo, mesmo com desconhecimento de causa. Qualquer tipo de fanatismo. Também detesto o saudosismo exagerado, pessoas que relembram o passado – e desprezam o presente - a todo instante.

24. Quais são os personagens históricos que você mais despreza?
Hitler e Stalin.

25. Qual dom natural você mais gostaria de possuir?
Habilidades musicais.

26. Como você gostaria de morrer?
Adoraria ter consciência de quando o momento se aproximasse. Releria o Evangelho de João quantas vezes pudesse fazê-lo.

27. Qual seu atual estado de espírito?
Tediosa e agradavelmente desencantado.

28. Para quais defeitos você se mostra mais disposto a perdoar?
O ciúme.

29. Qual é o lema da sua vida?
Não creio que exista algum. Acabo desmerecendo meus méritos quando os alço a condições de lemas ou metas.

domingo, 10 de janeiro de 2010

The most romantic song ever


If you want a lover
I'll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I'll wear a mask for you
If you want a partner
Take my hand
Or if you want to strike me down in anger
Here I stand
I'm your man

If you want a boxer
I will step into the ring for you
And if you want a doctor
I'll examine every inch of you
If you want a driver
Climb inside
Or if you want to take me for a ride
You know you can
I'm your man

Ah, the moon's too bright
The chain's too tight
The beast won't go to sleep
I've been running through these promises to you
That I made and I could not keep
Ah but a man never got a woman back
Not by begging on his knees
Or I'd crawl to you baby
And I'd fall at your feet
And I'd howl at your beauty
Like a dog in heat
And I'd claw at your heart
And I'd tear at your sheet
I'd say please, please
I'm your man

O legado de Humboldt - Parte II: Tédio

Charles Citrine, personagem do livro de Saul Bellow, desenvolve um artigo histórico e analítico do Tédio ("o tédio é uma espécie de dor causada por poderes insólitos, a dor de potencialidades e talentos inuteis") em O legado de Humboldt

Podia observar em mim mesmo as seguintes fontes de tédio: 1) A falta de uma conexão pessoal com o mundo externo. (...) Os intelectuais falam sobre um mundo desencantado (e chato). Mas não é o mundo e sim minha própria cabeça que se mostra desencantada. O mundo não pode ser desencantado. 2) Para mim, o ego autoconsciente é a sede do aborrecimento. Essa autoconsciência crescente, que se dilata, opressora e dolorosa, é a única rival dos poderes políticos e sociais que comandam minha vida.

O que mais me incomoda neste mormacento período entre as festas de fim de ano e o carnaval é a incapacidade de evitar os encontros sociais. De certa maneira, perde-se a vontade própria e, estimulado por sedativos naturais ou não, acaba-se consumindo horas e horas absolutamente artificiais. Mas não é a distorção dessa vontade própria, essa autoconsciência citada pelo personagem de Saul Bellow, o que evita o tédio, tão perturbador, o grande mal dos nossos tempos?

Nunca soube definir o que, em mim, seria timidez e o que seria autopreservação. Na presença de cidadãos célebres, socialmente admirados, políticos, jornalistas, acadêmicos, ou demais estranhos, sinto completa segurança. Nada me intimidam. Porém, perco-me na convivência urbana, banal, mesmo a familiar. E, ironicamente, tenho imenso prazer naquilo que os literatos europeus do século XIX chamavam de “entrevista”: a conversa íntima, pessoal, entre duas pessoas. Mas não mais que duas pessoas. Talvez três.

A intimidade e o desconhecido paradoxalmente me agradam, mas o conhecimento superficial soa-me enfadonho, cansativo, tedioso, enfim. A emoção que senti, neste fim de semana, quando ouvi, pela primeira vez, a Valsa do Adeus, de Chopin, é tão agradável e sublime quanto ouvir “Hallelujah”, de Leonard Cohen, pela milésima vez. Porém, quando sinto mal estar ao ouvir a música popularesca, exposta a todo tempo em carros de som, rádios e celulares, não é por preconceito cultural; na verdade, é o desconforto de estar em contato com algo que não me causa empatia, não me sugere intimidade, mas sequer pode ser exótico o suficiente para aguçar minha curiosidade e admiração.

Em suma, tal exemplo pode ser estendido a praticamente toda minha relação com o dito mundo externo, seja em questões políticas, culturais, esportivas ou, principalmente, afetivas. O que dificulta a absorção do tédio, portanto. Se tenho consciência do que me agrada, por que deveria me condicionar a freqüentar ambientes que me incomodam? Porém, se não abandono a redoma de minhas predileções pessoais, como evitarei o tédio? Consumirei o tempo em busca do exótico e do desconhecido, mas e quando o exótico e desconhecido tornarem-se comuns, para onde correr?

Viver é um fardo, e a solidão é tanto a solução como a úlcera. Encontro refúgio, durante algumas noites, em uma jeune fille en fleuer, mas minha Albertine é tão excessivamente jeune que me sinto culpado. O Corinthians, outro anestésico, abandonou-me desde o segundo semestre do ano passado. Sobra-me a literatura, em que escritores como Proust escrevem coisas como “O artista que renuncia a uma hora de trabalho por uma hora de conversa com um amigo sabe que sacrificou uma realidade por algo que não existe”.

E, no entanto, o mesmo Proust, quando se encontrava no entusiasmo de uma amizade que considerasse verdadeira, tudo fazia para atraí-la a sua mais profunda intimidade. Logo eu, que sou visto como recluso e tímido pelas boas línguas (e egocêntrico e arrogante pelas más), sou um poço de carência, que necessita de atenção e bajulação freqüente. Quão pesaroso é assumir essa dependência que, quando neglicenciada, tanto entristece. Há ciúmes que jamais desaparecem, apenas assumem novas formas. Mas o desencanto e, claro, o tédio, irão banalizar tudo, mais uma vez.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Corinthians - O Centenário Começou


Matias Defederico, Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos, os loucos do bando. Quem encara?

O legado de Humboldt - Parte I

O escritor Saul Bellow, em um metrô na cidade de Chicago, ambiente-tema de vários de seus livros

- Bem, francamente, Charlie, ando fora de forma temporariamente. Tenho de voltar a ter condições favoráveis para escrever de novo. Mas onde está meu equilíbrio? A angústia é demais. Deixa-me ressequido. O mundo continua interferindo. Preciso recuperar o antigo encanto. Sinto-me como se vivesse num subúrbio da realidade, andando de um lado para o outro. É preciso dar um fim a isso. Tenho que me fixar. Estou aqui – aqui na terra, ele quis dizer – para fazer algo, alguma coisa que valha a pena.


Muito me agrada em O legado de Humboldt, livro vencedor do Pulitzer de 1976, do escritor judeu americano Saul Bellow, seu desenvolvimento dos dilemas existentes entre o impulso criativo dos escritores intelectuais e as interferências das questões mundanas – o dinheiro, os prazeres banais, a família, a violência urbana – em suas percepções artísticas. Em seus livros, Bellow apresenta, de modo incômodo, personagens que sofrem bloqueios criativos e rejeitam uma suposta sublimidade da arte em prol de questões mais palpáveis, concretas, como as contas bancárias, as pensões dos filhos, as facilidades do dinheiro, a adoração do público.

Por vezes, nós, provincianos que respeitamos em excesso a alta cultura e a erudição, crescemos com a costumeira impressão de que obras artísticas de beleza irrestrita são frutos do sofrimento e das atribulações de atormentados poetas, amargurados músicos, depressivos escritores. Não creio, porém, que a dor seja realmente inspiradora a ponto de exercer real influência na confecção de um livro, por exemplo, que requer absurda concentração e controle mental. Acredito, pelo contrário, que é possível conciliar uma alegria simplória e ávida, estável, diferente da euforia desmedida, com a criação artística.

Mas há uma pergunta que deve ser respondida. Se o mundo particular é agradável, por qual razão deveríamos nos submeter a perder horas a descrever as contradições e dilemas do mundo externo? A arte não é, afinal, quase uma necessidade terapêutica? Escritores como Proust e Goethe externavam suas melancolias, Joyce e Rosa eram experimentalistas lingüísticos, enquanto outros como Kafka e Camus propunham um mundo deveras angustiante, mas, em comum, todos apresentavam formas particulares de plena realização artística. O que Saul Bellow faz, talvez pela primeira vez desde Tchekhov, é representar um mundo que, ainda que envolto pelo espectro das Belas Artes, trata das complexidades racionais do intelectual fora de tal espectro e dentro da sociedade como um todo, e não o contrário, como faz Wilde em O Retrato de Dorian Grey, cuja excentricidade inglesa e suas exacerbadas ironias superam suas análises sociais.

Saul Bellow sugere, em O legado de Humboldt, questões que considero muito pertinentes, mas que poucos escritores até então teriam a antipatia necessária para expor a um público devoto e respeitoso. Se eu, um escritor judeu americano bem sucedido, tenho a lataria do meu Mercedes-Benz 280-SL, que me custou uma grana alta, toda amassada a golpes de um bastão de beisebol por um marginal de Chicago, o que farei para recuperá-lo? A partir deste incidente, o protagonista do livro, Charles Citrine, envolve-se com a máfia de sua cidade natal. Mas Citrine é um intelectual, que cita Proust, Jung ou Emerson com freqüência. O que não impede que a complexidade da vida urbana lhe pareça tão confusa e artisticamente interessante quanto o bucolismo mineiro era sublime e idealizável para o arcádico Dirceu.

(Aliás, escrevo este texto porque, nas primeiras horas do Ano Novo, em uma boate, acompanhado por uma charmosa menina de olhos verdes, pensei em Saul Bellow, assim como Charles Citrine vive pensando em literatura nos momentos mais inusitados [“minha memória erudita, mantendo seu incansável pedantismo; minha memória léxica e intrometida!”, resmunga, no livro]. Pensei em como nós, leitores e espectadores e ouvintes de intermináveis lamúrias e tragédias dramáticas, culpamo-nos pela própria alegria, como se estivéssemos subvertendo a realidade crua da humanidade. Que bobagem.)

Citrine atormenta-se com sua condição de intelectual definido (e não estudantes em expansão, como nós) em uma cidade violenta (assim como o Sr. Sammler em O Planeta do Sr. Sammler, outro livro de Bellow, de 1971), pero no mucho. Vive a questionar – e a duvidar – de seus preceitos morais, mas é um homem educado, vaidoso, sem muitos dos atributos necessários para protagonizar uma obra literária de grande porte. Quase comum.

É esta não-ambição intelectual em um homem inteligente e famoso exatamente por seus livros e peças artísticas que tem me atraído na leitura de O legado de Humboldt. Escrevo aqui as impressões iniciais sobre a primeira metade do livro. Retornarei, em breve, com minhas conclusões desta obra do “maior escritor americano de todos os tempos”, segundo o, vejam só, maior escritor americano vivo, Philip Roth, principal discípulo de Bellow no tratamento dos shiksas da incorporação do imigrante judeu nesta terra vibrante e discursiva que são os Estados Unidos.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A happy christmas to everyone



Silent night, holy night
Shepherds quake at the sight
Glories stream from heaven afar
Heavenly hosts sing alleluia
Christ, the Saviour is born
Christ, the Saviour is born

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Música 00

Para camuflar a preguiça e a falta de assunto do fim de ano, prossigo com minha segunda lista de melhores da década 00, desta vez com meus 25 discos prediletos. Assim como homenageei Bergman na lista de filmes, dedico a relação abaixo ao baiano João Gilberto, a minha mais prazerosa descoberta musical nesses 22 anos de vida. Seu disco ao vivo de 2004, In Tokio, certamente não tem a importância de um Chega de Saudade ou a classe de um Amoroso, talvez os álbuns que eu mais tenha ouvido nesta década. Mas é primoroso, como tudo feito pelo maior músico do século XX.

Como a lista refere-se, porém, aos melhores desta década (que se encerra no fim de 2010, vejam só), não é de bom praxe ficar elogiando artistas com mais de setenta anos. Mas quando terminei de selecionar os nomes abaixo, notei que, dos dez primeiros colocados, apenas os discos da Regina Spektor e do Arctic Monkeys são de nomes efetivamente criados na década 00. Não implica, no entanto, que os últimos anos não tenham sido de bom proveito para meus ouvidos. Pelo contrário: a proporção entre o bom gosto e a mediocridade é a mesma de qualquer época passada.

Além disso, não posso me proclamar uma autoridade no assunto, já que, em 2000, eu ainda tinha meros doze anos de vida. E neste exato ano eu descobri o Radiohead, que emplacou os dois primeiros lugares da lista. Kid A é uma obra gélida, desconfortável e, paradoxalmente, acolhedora e emocionante. Tem “Idioteque” e “Everything In Its Right Place”, as melhores músicas da década. É um disco estranho, anticomercial - mas que atingiu o primeiro lugar no Top 200 dos charts da Billboard - e que supera, fácil, qualquer outro dos nomes citados em minha lista, inclusive o próprio In Rainbows, o segundo colocado, aka aquele-que-você-pagou-quanto-quis-para-fazer-o-download.

É preciso também chamar a atenção para , de Caetano Veloso. Ainda que tenha ouvido e apreciado outras obras de artistas brasileiros – Los Hermanos, Roberta Sá, Bebel Gilberto, Racionais MCs -, é o único disco nacional dessa década capaz de competir, ou mesmo superar, as outras obras aqui citadas. Se me pedissem uma lista de álbuns preferidos dos anos setenta, uns dois terços da lista seriam preenchidas por trabalhos de artistas do país. Como não é o caso, eis os meus discos prediletos desta década, nacionais e internacionais:

1. Radiohead – [2000] Kid A

2. Radiohead – [2007] In Rainbows

3. Morrissey – [2004] You Are The Quarry

4. Richard Hawley – [2005] Coles Corner

5. Regina Spektor – [2006] Begin To Hope
6. Arctic Monkeys – [2006] Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not

7. Caetano Veloso - [2006]

8. PJ Harvey – [2000] Stories From The City, Stories From The Sea

9. The Charlatans – [2001] Wonderland

10. R.E.M. – [2000] Reveal
11. Leonard Cohen – [2001] Ten New Songs

12. Coldplay - [2000] Parachutes

13. Cat Power – [2006] The Greatest

14. João Gilberto – [2004] Live in Tokyo

15. Manic Street Preachers - [2001] Know Your Enemy
16. M.I.A. - [2007] Kala

17. Delays - [2004] Faded Seaside Glamour

18. Coralie Clement – [2001] Salle des Pas Perdeus

19. Doves - [2002] Lost Souls

20. Pete Yorn & Scarlett Johansson - [2009] The Breakup Album
21. Muse - [2003] Absolution

22. Cinematic Orchestra - [2006] Ma Fleur

23. Julieta Venegas - [2006] Limón y Sal

24. Strokes – [2001] Is This It

25. Richard Ashcroft - [2002] Human Conditions

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Cinema 00

Creio não ter tempo hábil para finalizar a edição de dezembro da Revista Wave. Já estamos na metade do mês e, como é humanamente impossível convencer os colaboradores a entregar textos durante as festas de Natal e Ano Novo, somente em janeiro postarei alguma coisa no site. Além disso, não me interessa produzir a tradicional edição de melhores do ano - ou da década – presente em todas as publicações culturais, já que listas sempre dizem mais a respeito de quem as elabora do que ao tema em si. Porém, como evidenciar as próprias particularidades é a prática favorita de dez em dez jornalistas culturais, publicarei aqui, no blog, minhas listas de filmes, discos e livros prediletos da década 00. Apenas as listas: acredito que meus poucos leitores, inteligentes e curiosos que são, já conheçam a maior parte dos nomes citados e não vejo a necessidade de maiores comentários.

Iniciarei com meus 25 filmes prediletos da década. Lost In Translation, de Sofia Coppola, ainda que não seja a obra de maior impacto ou de plena realização artística dentre os longas citados abaixo, lidera, porque, além das razões afetivas, é o filme que me apresentou à estética particular do cinema. Não há descrição verbal que possa representar tão perfeitamente a beleza que é a imagem de Scarlett Johansson deitada, de calcinha, na janela de um apartamento em Tókio. Um filme estático, delicado e absurdamente cool.

De Michael Haneke, poderia escolher qualquer um de seus três filmes lançados nesta década, mas Caché tem Juliette Binoche no elenco, o que vale preciosos pontos. Tinha dezesseis anos quando vi o terceiro colocado, Dogville, de Lars Von Trier e ainda sinto desconforto quando me lembro do assassinato do cão Moisés. Há filmes de diretores que admiro há muito tempo, como O Pianista, de Polanski, Mulholland Drive, de Lynch, Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen e há algumas valiosas descobertas, como o mexicano Iñarritu e o americano Aronofsky, além de Fernando Meirelles, é claro, o grande nome do cinema nacional desde Glauber Rocha.

A menção honrosa é Saraband*, o último longa-metragem de Bergman, uma espécie de continuação, criada especialmente para a TV sueca, em 2003, da famosa minissérie Cenas de um Casamento, sucesso da década de 70. A história do casal formado por Erland Josephson e Liv Ullmann, que se reencontra após trinta anos, é uma clara alusão ao silencioso desespero da espera da morte, aflição natural ao diretor sueco, então com 85 anos. Quatro anos depois, em 2007, morreria, em sua casa na ilha de Fårö. Ao maior realizador da história do cinema, dedico a lista abaixo.

1. Sofia Coppola – [2003] Encontros e Desencontros, Lost In Translation
2. Michael Haneke – [2005] Caché

3. Lars Von Trier – [2003] Dogville

4. Roman Polanski – [2002] O Pianista, The Pianist

5. Fernando Meirelles – [2002] Cidade de Deus

6. David Lynch – [2002] Cidade dos Sonhos, Mulholland Drive

7. Gaspar Noé – [2002] Irreversível, Irrevérsible

8. Paul Thomas Anderson – [2007] Sangue Negro, There Will Be Blood

9. Ethan e Joel Coen – [2007] Onde Os Fracos Não Tem Vez, No Country For Old Men

10. Alessandro González Iñarritu – [2000] Amores Brutos, Amores Perros

11. João Moreira Salles – [2007] Santiago

12. Wong Kar-wai – [2000] Amor à Flor da Pele, Dut Yeunbg Nin Wa

13. Wes Anderson – [2001] Os Excêntricos Tenenbaums, The Royal Tenenbaums

14. Christopher Nolan – [2000] Amnésia, Memento

15. Julian Schnabel – [2007] O Escafandro e a Borboleta, Le Scaphandre et le Pappillon

16. Alexander Payne – [2004] Entre Umas e Outras, Sideways

17. Woody Allen – [2008] Vicky Cristina Barcelona

18. Eduardo Coutinho – [2005] O Fim e o Princípio

*19. Ingmar Bergman – [2003] Saraband

20. Darren Aronofsky – [2000] Réquiem para um Sonho, Requiem for a Dream

21. Spike Jonze – [2002] Adaptação, Adaptation

22. Michel Gondry – [2004] Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, Eternal Sunshine of a Spotless Mind

23. Steven Soderbergh – [2000] Traffic

24. Danny Boyle – [2009] Quem Quer Ser Um Milionário?, Slumdog Millionaire

25. Richard Kelly – [2001] Donnie Darko

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domingo, 6 de dezembro de 2009

O verão que doou seu perfume a diversas flores


Estate
Sei calda come i baci che ho perduto
Sei piena di un amore che a passato
Che il cuore mio vorrebbe cancellar

Estate
Il sole che ogni giorno ci saldava
Che splendidi tramonti dipingeva
Addeso brucia solo con furor

Tornera un altro inverno
Cadranno mille petali di rose
La neve copira tutte le cose
E forse un po di pace tornera

Odio l'estate
Che hai dato il tuo profumo ad ogni fiore
L'estate che hai creato il nostro amore
Per farmi poi morire di dolor

Estate

sábado, 5 de dezembro de 2009

How insensitive

Rompemos definitivamente o namoro em uma quinta-feira à noite. Na quarta, um dia antes, decidi não vê-la e inventei que queria assistir futebol na televisão. Na terça, foi ela que não quis me ver. Na segunda, havíamos discutido pela última vez como namorados. Ela queria dançar quadrilha na festa junina do colégio e eu, ciumento, não queria permitir; considerava inadequado que uma namorada minha se prestasse a algo tão banal. No domingo, fizemos amor durante toda a tarde em meu quarto, da maneira que mais nos agradava: ela se deitava de bruços e eu ficava em cima dela, segurando seu cabelo com força enquanto ela chupava meus dedos e seus gemidos eram altos o suficiente para que meus pais e irmãos, na sala ao lado, ouvissem. Sussurrávamos obscenidades no ouvido um do outro. Depois, fartos e cansados, dormimos alguns minutos, vestimos nossas roupas e, com a maior naturalidade possível, saímos do quarto e decidimos ir a uma sorveteria. Ela sempre escolhia os sabores mais exóticos.

Nas semanas que antecederam nosso rompimento, apesar das mágoas e frustrações construídas durante toda a relação, meu espírito era sereno e compreensivo. Mas não sei se éramos felizes. Lembro que, num determinado domingo, quando estávamos tentando reatar o namoro após uma das várias separações temporárias, ela, deprimida, bebera excessivamente e passara mal. Trouxe-a para minha casa e sua mãe, apavorada, apareceu e a levou embora. Naquela noite, após deixá-la, chorei, por ela e porque – e não saberia explicar com maiores detalhes – considerei que vivia em um mundo injusto em que nada poderia ser realmente perfeito como eu desejaria.

A iminência do fim de um relacionamento nunca é evidente o suficiente para quem ainda se encontra apaixonado. Anos depois, é possível perceber como nos arrastávamos. Desgastados, após tantas horas de convivência diária, é surpreendente relembrar como me esforcei, em vão, para tentar evitar o inevitável. Surpreendente e comovente.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

'Antigamente as pessoas inteligentes usavam a literatura para pensar. Esse tempo passou'

Mais de uma vez, a querida Van Prates aconselhou-me a ler Os Realistas, do crítico inglês C. P. Snow, livro que retrata a vida e a obra de oito dos mais importantes romancistas da literatura universal. Sempre evitei descobrir maiores detalhes da vida pessoal de um escritor antes de conhecer sua obra com profundidade. Jornalistas culturais, biógrafos e mesmo acadêmicos respeitados costumam usar-se da intimidade do artista, com toda ênfase possível às suas preferências sexuais e políticas, a fim de recriar uma imagem do escritor que, inconscientemente ou não, acabamos incorporando à nossa primeira avaliação de sua obra.

Detalhes desimportantes da biografia de um artista (como a informação de que Kafka perdeu a virgindade aos vinte anos) afetam, de uma maneira ou outra, a análise de um leitor mais ingênuo. Ou estarei sendo rígido? Sei que é praticamente impossível desvincular a imagem histórica que temos de Shakespeare ou Dante ao lermos suas obras, mas considero prejudicial que alguém leia, por exemplo, O Retrato de Dorian Grey com a pré-concepção de estar diante do livro de um escritor homossexual, quando as preferências íntimas de Oscar Wilde nada interferem na qualidade estética e literária de um dos grandes romances da história da literatura inglesa.

Em um de meus trechos preferidos de O Fantasma Sai de Cena, de Philip Roth, Amy Bellete, amante do falecido escritor E. I. Lonoff, o mentor intelectual do protagonista Nathan Zuckerman, escreve uma carta para o editor do caderno literário do The Times. Selecionei alguns trechos:

“Antigamente as pessoas inteligentes usavam a literatura para pensar. Esse tempo passou.”

“Hoje em dia, a maneira mais comum de utilizar a literatura, tal como se vê nas páginas de cultura dos jornais mais esclarecidos e nos departamentos de letras das universidades, é tão avessa aos objetivos da literatura criativa e às compensações que ela proporciona ao leitor de mente aberta, que seria melhor se a literatura não tivesse mais nenhuma utilidade pública.”

“O seu jornalismo cultural não passa de fofocas de tabloide disfarçadas de interesse pelas artes.”

“É impressionante a importância que os jornalistas culturais dão às barreiras da privacidade quando o que está em jogo é o romance.”

[Com ironia] O escritor passa anos trabalhando no texto, aposta tudo que tem no seu trabalho, escreve cada frase sessenta e duas vezes e no entanto não tem nenhuma consciência literária, compreensão nem meta geral. Tudo o que o escritor constrói meticulosamente, juntando trechos e detalhes, não passa de um truque, de uma mentira. O escritor não tem nenhuma motivação literária. Não tem interesse em representar a realidade. Suas motivações são sempre pessoais, e geralmente vis.”

“Se você disser a um jornalista cultural: ‘Dê atenção apenas ao conto em si”, ele não terá o que dizer.

“Se eu tivesse um pouco de poder que tinha Stálin, eu não o desperdiçaria silenciando os escritores criativos. Eu silenciaria aqueles que escrevem sobre os escritores criativos. (...) Eu deixaria os leitores a sós com os livros, para que tirassem suas próprias conclusões”.

Entendo, obviamente, a necessidade documental de se reconstituir a biografia dos grandes escritores da literatura. Um homem apenas é grandioso quando se torna histórico. Mas há de se exercer tal prática com responsabilidade e prudência. Como leitor, procuro sempre discernir a ideologia pessoal da obra do artista. Ezra Pound era ligado ao partido fascista de Benito Mussolini, mas em quais aspectos isso interfere na qualidade lírica de Os Cantos? Um fato como esse é repulsivo e tem grande validade na documentação histórica do poeta, mas a análise de sua obra não deve se ater exclusivamente a isso. Considero, por exemplo, um grave erro de conduta alguém ler a maravilhosa Biografia de James Joyce, do crítico Richard Ellmann, antes de ler, ao menos, O Retrato do Artista Quando Jovem, um dos mais famosos Bildungsroman já escritos, essencial na compreensão da obra e, consequentemente, da vida do irlandês.

A carta de Amy Bellete sugere que a obsessão com a vida particular de um escritor negligencia a real utilidade da literatura, que é a reflexão subjetiva. É esclarecedor saber que Kafka teve um relacionamento angustiante com o pai, mas acreditar que O Processo, O Castelo e A Metamorfose são meramente obras representativas de tal relação e só foram criadas porque Kafka cresceu sob uma educação opressora é desprezar a genialidade do caráter universal de seus livros. Supor que um escritor brilhante como Kafka seja movido pela necessidade e urgência de expressar suas mais íntimas emoções e traumas é de uma ingenuidade atroz.

C. P. Snow, que, além de crítico, também é romancista, comete alguns desses equívocos. Como adquiri o livro essa semana, li apenas os retratos de escritores que tenho maior familiaridade: os russos Dostoievski e Tolstoi e o francês Proust. Stendhal, Balzac, Dickens, Henry James e o espanhol Galdós completam os oito perfilados. Há várias deduções (como insistir na típica ideia da psicanálise de que a infância de Dostoievski foi deveras deprimente e que isso teria influenciado sua obra posteriormente, ou tentar desmoralizar Tolstoi com uma abundância de suposições a respeito de sua vida sexual) não-comprovadas, mas, na maior parte do que li, o livro é bem instrutivo para quem tem algumas aspirações literárias. Saber que Dostoievski, precisando de dinheiro com urgência, escreveu algumas de suas obras, como O Idiota e O Jogador, com prazos curtíssimos de entrega para seus editores, é um exemplo de fato que interfere efetivamente na análise e apreciação da obra, porque precisamos compreender que a revisão técnica e o apuro na construção de seus personagens foram realizados sob intensa pressão, prejudicando (ou não) o resultado final.

Há, realmente, histórias deliciosas no livro de Snow. Mas são apenas as opiniões pessoais de Snow, segundo suas referências de vida, que retratam esses oito romancistas - conhecidos em todo mundo por encerrarem lições das mais profundas, completas e surpreendentes do espírito humano -, e não uma verdade radical e imutável. Como estudante de jornalismo, aprendi a notar meandros de persuasão que escritores factuais utilizam para exercitar percepções particulares. Criam uma teoria e, posteriormente, manuseiam os fatos para comprová-la. Mas não é irônico que a obra literária tenha maior caráter de observação e análise social, política e espiritual do que o jornalismo, este último supostamente tão preocupado com a veracidade e a objetividade?

Enfim, aconselho sempre a leitura da literatura em primeiro lugar, e apenas depois as biografias, as críticas e as discussões acadêmicas. Em meu ensaio sobre a sinceridade religiosa, publicado na última edição da Revista Wave, escrevi que as notícias jornalísticas são efêmeras, repetitivas e, mais do que nunca, editáveis e dignas de revisões, enquanto Hamlet, a Bíblia, Guerra e Paz e as Variações Goldberg são criações eternas. Como a revista não tem compromissos com o hardnews ou com falsas polêmicas, procuro sempre publicar textos que, ao menos, se propõem a estimular alguma reflexão no leitor. Mas, ainda assim, o rigor factual e o mínimo de julgamentos precipitados são práticas que pretendo sempre obedecer em meus artigos e reportagens.

A principal ressalva que faço a textos como os de C. P. Snow é a mesma que faço a todo mundo que se acredita capaz de emitir opiniões a respeito de qualquer coisa: nunca devemos usar nossas próprias referências de comportamentos sexuais, políticos ou religiosos para classificar um caráter alheio de exótico ou deplorável. É uma prática injusta e incoerente e, a meu ver, o julgamento precipitado é tudo o que a literatura se propõe a evitar.

P.S.: Tinha a intenção de transformar as observações acima em um artigo para a Revista Wave, usando a recém-lançada biografia de Clarice Lispector, lançada pelo jornalista norte-americano Benjamin Moser, como mote. Mas a preguiça e minha pouca aderência a obra da escritora me impediram de levar a ideia adiante. Não é tudo muito vago e metafísico demais em Clarice, uma suposta profundidade que, no fim, acaba não revelando nada? Talvez seja feminino e sensível demais para mim, mas não me considerem misógino, meninas: agrado-me sobremaneira com Dorothy Parker, Emily Dickinson e Virginia Woolf, dentre outras brilhantes escritoras. Clarice talvez seja tão superestimada porque brilhou em uma área pouco desenvolvida da literatura nacional, que é o romance psicológico. Mas nunca me empolgou de verdade. Aguardo e aceito argumentos contrários.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Cesar Benjamin ziguezagueou no vira virou

Pouco tenho escrito por aqui nos últimos dias. Desleixo, preguiça, vida particular agradável e até mesmo um pouco de trabalho são os motivos da minha negligência para com os queridos leitores. Mas vejam só, preciso avisá-los que, de sexta-feira para cá, a média de acessos diários da Revista Wave atingiu seu maior índice desde a primeira edição, em fevereiro de 2008. Tudo graças a um discreto perfil de César Benjamin (o homem que acusou Lula de ter ‘subjugado’ o tal ‘menino do MEP’, como você já deve – ou deveria – estar sabendo) publicado em outubro do ano passado e (re)descoberto agora que a polêmica estourou. Para minha grata surpresa, o texto que escrevi era, até então, das poucas matérias na internet dedicadas a entender a história do talvez mais jovem militante e guerrilheiro da história do país.
No perfil, há outra acusação séria relacionada ao presidente.
(...) Junto com Lula, César foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, o PT, onde militou ativamente até romper em 1995.

A desilusão de César para com o partido teve início após a fatídica edição do debate de Lula e Collor pela Rede Globo, famosa por desfavorecer claramente o candidato do PT. Após a exibição do debate, César liderou uma manifestação de protesto nos estúdios da emissora, com mais oito mil militantes. Dias depois, a decepção. Em encontro com Lula, o hoje presidente do país lhe confidenciava ter jantado com Alberico Souza Cruz, um dos editores-chefes do jornalismo da emissora, e juntos, teriam “derrubado três litros de uísque”. O ato pareceu indigno para César, que teria ouvido de Lula a justificativa: “Não vou brigar com a Globo, não é, Cesinha?”.

Após sérias acusações a direção do partido, inclusive a Lula, César iria romper oficialmente com o PT em 1995.
(...)
A ironia é que o "baluarte da verdadeira esquerda" César Benjamin, após toda a decepção descrita acima, tenha permanecido na liderança da campanha de Lula para a eleição seguinte, em 1994, quando ouvira a história da tal tentativa de "subjugação".
Confirma-se, na comédia toda: a estupidez e o mau gosto do presidente Lula em fazer piada a respeito de um estupro; a sacanagem da Folha de S. Paulo em esconder uma declaração obviamente grave em um canto de página; as conseqüências nefastas que a ditadura causou na mente de um garoto que aos dezessete anos já era torturado pelos militares; e o mais importante, meus perfis escritos para a seção personagem da Revista Wave (Kevin Carter, Leila Diniz, Vanja Orico, Fred Astaire, Waldick Soriano, dentre outros) continuam sendo as páginas mais visitadas e elogiadas do site. Às vezes - não sempre - acredito que realmente tenho certo faro jornalístico.
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Aproveitando o tempo para escrever, queria comentar que tive, um mês atrás, sérias intenções de escrever um perfil homenageando o falecido Claudinho, faixa do Buchecha, mas a Globo fez o Por Toda a Minha Vida na quinta-feira passada e me dei por satisfeito. Ouvir novamente a nabokoviana “Nosso Sonho” ("seus doze aninhos permitem somente um olhar") quase me levou as lágrimas. Que música linda. Sem falar de "Desinibida" (revitalização funk de "Deixe a Menina, do Chico Buarque), a carioquíssima "Rap do Salgueiro", a versão ixperta de "Tempos Modernos", do Lulu Santos, a hilária "É o Boi", a minha predileta "Conquista" e, é claro, "Só Love", uma das melhores letras da música popular romântica do país. Qualidade de vida, no Brasil, era isso aí. Que saudade!