Domingo, 5 de Julho de 2009

És um senhor tão bonito

Eu, que me proclamo apolítico, tenho usado quase a totalidade do meu tempo em questões políticas. Logo, não tenho tido tempo para conversar e beber com alguns queridos amigos, ou tempo para me emocionar e rir com filmes de Fellini, ou tempo para ler e reler contos de Tchekhov, ou tempo para escrever meus próprios contos, ou tempo para editar novos textos para a Revista Wave, ou tempo para telefonar para aquela menina que se vai, ou tempo para comentar questões jornalísticas, como aquele artigo do Guardian que decretou a morte dos blogs após o surgimento do twitter, ou tempo para responder aquela infinidade de emails pedindo emprego, ou tempo para comentar – já que para comemorar eu sempre terei de sobra – o tri corintiano na Copa do Brasil, ou tempo para atualizar este blog. Well, ao menos, para esta última questão, descolei, ainda que miseravelmente, alguns minutos do meu fim de domingo. Tempo, tempo, tempo, vou te fazer um pedido...

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Bono Of Blinding Lights

Se a morte de Michael Jackson simboliza o fim da era dos mega espetáculos, das mega produções, dos mega artistas, como especulam os analistas da música pop, ávidos por sepultar a arte de alcance popular em prol da desfragmentação virtual, esqueceram de avisar aos irlandeses do U2.
Porque, afinal, ainda temos Bono, Madonna e o outro MJ, dos Stones, alive and kicking around. Ontem, dia 30 de junho, o U2 estreou a turnê 360º, no Camp Nou, estádio do Barcelona, na Espanha. Como não poderia deixar de ser, Bono dedicou a canção "Angel Of Harlem" (originalmente, uma homenagem a outro ícone negro, a cantora Billie Holiday) à Michael, além de cantar trechos de "Man In The Mirror" e "Don't Stop Til You Get Enough".
Homenagens póstumas, imensa estrutura metálica, palco de 390 toneladas, toda a histeria megalomaníaca característica do U2 não me comove tanto quanto saber que "Ultra Violet (Light My Way)", a melhor música já composta pela banda, voltou a fazer parte do setlist de uma turnê do grupo desde pelo menos 92, quando aparecia ocasionalmente no repertório da Zoo TV Tour.


E, para o bom caminhar do blog, torçam pela vitória do Corinthians hoje, na final da Copa do Brasil, contra os chorolados. A tensão nunca foi tão grande, caros amigos.

Domingo, 28 de Junho de 2009

Decadência Permanente

Oh, para onde partiste, meu passado? Onde estás? Eu era jovem, inteligente, sonhava, pensava belas coisas, presente e futuro iluminavam-se de esperanças... Por que mal começamos a viver, eis-nos mortos, fracos, chatos, preguiçosos, indiferentes, inúteis, desgraçados?... Nossa cidade existe há duzentos anos, tem cem mil habitantes e não há nenhum entre nós que não seja semelhante a todos... Nem mesmo um herói, no passado ou no presente. Nem mesmo um sábio... Nem ao menos um pintor... Nem sequer um só homem notável em qualquer coisa que excite a inveja ou o desejo apaixonado de imitá-lo. Nada se faz, além de comer e beber, dormir e depois morrer... Outros nascem e, também esses, comem, bebem e dormem e, para que o tédio não os embruteça definitivamente, põem variedades em suas vidas, como mexericos infames, vodka, jogo, chicanas... e as mulheres enganam os maridos, os maridos mentem e fingem que nada percebem, e essa influência irresistivelmente vulgar pesa sobre as crianças, sufoca a centelha divina que vivia dentro delas... e elas se tornam cadáveres, tão miseráveis como seus pais e suas mães.

Do personagem Andrei Sergueievitch Prosorov, o irmão das “Três Irmãs”, a mais famosa peça de teatro de Anton Tchekhov, encenada pela primeira vez em 1901.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Racismo Provinciano

Ontem, na partida da semifinal da Libertadores, o volante do Cruzeiro, Elicarlos, acusou o atacante argentino Maxi López, do Grêmio, de racismo. Supostamente, López teria chamado o jogador adversário de “macaco”. Aliás, supostamente coisa nenhuma. Ofensas do tipo são comuns em jogos entre times do Brasil e da Argentina. Por isso, nada espantoso em um argentino, como Maxi López, que joga no time com a torcida mais racista do país, no estado mais racista do país, ofender um rival de tal maneira.

Nada espantoso, mas completamente reprovável. “Se acontecer comigo, dou um soco na boca de quem me xingar”, disse o melhor volante do país, Cristian, do Corinthians. Qualquer atitude violenta é justificada diante de um racista estúpido como Maxi López.

O histórico gremista, para quem não conhece:
9 de Março de 2006 - Noticiado no Terra Esportes
2 de Outubro de 2007 - Noticiado no Estadão
17 de Outubro de 2007 - Noticiado no Terra Esportes
17 de Novembro de 2008 - Noticiado no Globo Esporte e ClicRBS
17 de Novembro de 2008 - Noticiado no Zero Hora
20 de junho de 2009 - Noticiado no LanceNet
É a velha síndrome provinciana de se acreditar maior do que realmente é. Típica de muitos gaúchos e argentinos.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

Diploma de Jornalista, o assunto chato da vez.

Algumas pessoas estão a me cobrar um posicionamento a respeito da decisão do Supremo Tribunal Federal em desregulamentar a profissão de jornalista. Segundo a Deborah (contra a decisão), seríamos péssimos estudantes de Jornalismo caso não nos pronunciassemos sobre o assunto. "E um editor de uma revista virtual, como eu?", pensei, com peso na consciência.
Pois bem. Tudo o que eu penso sobre o assunto - e, consequentemente, sobre a estéril discussão -, a Carol, que assim como eu e a Deborah, estuda Comunicação Social na UNESP, de Bauru, já disse aqui e aqui.
Nada muda, praticamente. E o pouco que muda, muda para melhor. Logo, não há muito a se discutir. E tudo que é exagerado e superestimado torna-se assunto chato, chato, chato.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

David Kepesh, Três Vezes

1. "No mês seguinte, com um caderno de anotações nos joelhos e algumas observações na mente, volto todas as noites à ficção de Tchekhov, ouvindo o grito de angústia da criatura social, cerceada e desditosa, as esposas bem-educadas, que durante o jantar, em companhia das visitas, pensam: "Por que estou sorrindo e mentindo?", e os maridos, aparentemente estabelecidos e seguros de si, "que estão impregnados de verdade e dissimulação convencionais". Ao mesmo tempo, observo de que modo Tchekhov, com simplicidade e clareza, embora não tão impiedosamente quanto Flaubert, revela as humilhações e os fracassos — e o que é pior, o poder demolidor daqueles que procuram a maneira de sair da casca de restrições e convenções, fora do tédio envolvente e do desespero asfixiante, fora da penosa situação matrimonial e da endêmica falsidade social para entrar naquilo que pensam ser uma existência vibrante e atraente. "
2. "Mas, como é que você ousa? E o que acha do seu casamento atual? Debbie é tão vulgar; sua espontaneidade é postiça e artificial, sua candura, uma exibição canhestra, que a sociedade diria caprichosa, papai chamaria diabólica... Arthur, isso não vale nada, é apenas um comportamento audacioso e sem importância. Enquanto Helen... meu Deus, Helen é cem vezes, Helen é mil vezes..." Mas é claro que não cheguei a tais limites de indignação, não pronunciei palavras tão insensatas sobre a falsidade e superficialidade de sua mulher em comparação com a integridade, inteligência, charme, beleza, e coragem da minha. . .

Afinal de contas, ele adora a esposa, enquanto eu, pelo menos naquela noite, só tinha, em relação à minha, idéias homicidas."
3. "Tenho vontade de gritar: 'Caro amigo, guarde bem esta frase!' Por quê? Porque, ao término dos anos de universidade, raramente encontrarão alguém, se encontrarem, que vá lhes falar ou ouvir o que vocês falam e ouvem uns aos outros e a mim, nesta pequena sala luminosa e despojada. Tampouco é provável que vocês encontrem facilmente oportunidade de falar sem constrangimento daquilo que teve maior significação para homens tão marcados pelos conflitos da vida como Tolstói, Mann e Flaubert. Pergunto-me se sabem como é comovente ouvi-los falar, tão profundamente e com a maior seriedade, de solidão, doença, saudade, perda, sofrimento, ilusão, esperança, paixão, amor, medo, corrupção, calamidade e morte. . . Comovente porque vocês têm dezenove ou vinte anos, em sua maioria, são de classe média abastada, não têm um passado de experiências depressivas — mas também porque, por estranho e triste que pareça, talvez esta seja a última oportunidade que vocês terão de refletir seriamente sobre as forças inexoráveis contra as quais um dia terão de lutar, quer queiram, quer não. "

Trechos de O Professor de Desejo, de 1973, de Philip Roth.

Sábado, 20 de Junho de 2009

Because Of

O que em mim é timidez, desprezo social ou somente natureza razoável, não saberia dizer. Tenho certeza apenas que a convivência amorosa é trabalhosa. Minha mente delira frequentemente por obsessões ardilosas, o que é prejudicial para mim. O ócio preferencial possibilita que as pessoas e situações transmutem de admiráveis e sedutoras para monótonas e desprezíveis. Talvez isso explique três relações diametralmente opostas, todas elas interessantes, todas elas superficiais.

Quando, porém, nuas, em suas diferentes maneiras, elas pedem, “olhe-me pela última vez”, em um lugar secreto, em uma vida plena, tudo que reflete e pensa se dissipa profundamente.

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Trotski Lelê


Inaugurei, na edição nº 018 da Revista Wave, a coluna “Contos, Crônicas e Ficções”. Desde a primeira edição do site que lamento a falta de espaço para a nova literatura dos colaboradores da Wave. O texto inicial é meu, já publicado no blog, A Solidão Me Atrai. Solicito aos leitores com tendências literárias a participarem da coluna. O espaço é aberto.

E finalmente atualizamos a coluna da Carol Bataier. Entrevistei-a informalmente sobre literatura feminina, aspirações e inspirações artísticas, livros adolescentes e outras coisas. Leia a primeira parte da conversa e comente, simpático leitor. Pretendo entrevistar outros amigos, quero documentar opiniões e pessoas. Certas percepções merecem mais do que frases sintéticas e engraçadinhas no twitter.

Algo mais a comentar? Bem, recebi um panfleto da Juventude Revolucionária no portão da UNESP. “Serra é Ditadura”, “Ampliar a Greve e Ocupar a Reitoria”, “Fora Serra, Fora Suely Vilela!” e outras palavras de ordem estampavam as manchetes do suplemento. Como o jornal não continha nenhum erro crasso de português, ao contrário de praticamente todas as reivindicações unespianas, decidi apoiar a Juventude do Partido da Causa Operária e estou a divulgar o site do partido, que estampa a imponente figura de Leon Trotski em sua página inicial. Sim, aquele russo da cantiga infantil “Trotski Lelê”:

"Trotski Lelê tá doente
Tá com a cabeça quebrada
É porque ele levou
Aquela picaretada"*

A picaretada, aliás, também serviu de inspiração para o famoso trava-língua trotskista. Você lembra, lá estavam os bolcheviques, repetindo a coisa de forma frenética, travando suas línguas em angustiantes tropeços de pronúncia, imersos neste jogo assaz extasiante:

"Um comitê de trotskistas
Com seis trotskistazinhos
Quem destrotskistizar um trotskista
Um bom stalinizador será!"**

Quem fracassava era expurgado do partido e enviado sem mais delongas para algum Gulag. E viva a Juventude Revolucionária!

* Créditos a Isabella Pombal
** Créditos a Egon Zakuska

Cerejas


Ano passado, escrevi fraquíssimo texto sobre a XXII Festa das Cerejeiras, na cidade de Garça, interior de São Paulo. É um texto histérico, desiludido e pouco centrado, que de certa maneira refletia a confusão mental por que passava na época. Na edição de 2009, tudo diferente. Lúcido e sereno para aproveitar a atmosfera oriental do evento, tive um fim de semana agradável sob um frio rigoroso, apesar das atrações de péssimo gosto, como o Teatro Mágico, com palhaços em cima e na frente do palco, das filas imensas e dos inconvenientes naturais de aglomerados humanos.

Neste ano, não tive o desprazer de reencontrar colegas do colegial, como costuma acontecer. Geralmente, passam horas rememorando travessuras imbecis, depois lamentam os adolescentes de hoje, tão fúteis e superficiais, e chegam mesmo a se emocionar com a saudade dos velhos tempos. Aos 22 anos, já se tornaram saudosistas. É quase desprezível.

Realmente marcante, apenas o diálogo com Gabrielle, minha problemática ex-namorada.

Ela, ao me ver a sorrir – Por que você está tão feliz?

Eu, ainda a sorrir – Porque eu sou feliz, oras.

Ela, indignada – Você não é feliz.

Eu, levemente incomodado – Não?

Ela, enfática – Não.

Ao que parece, aparento tristeza. Mas não próximo a ela. Sua presença me alegra, Sweetie.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Valentine's Day

And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you know she will trust you
For you’ve touched her perfect body with your mind


[Meninas pretendentes ao meu desolado e solitário coração, no Dia dos Namorados eu aceitaria de bom grado o DVD “Live In London”, de Leonard Cohen. Desde já, tenho a certeza que será o melhor lançamento da música no ano de 2009.]

Editorial nº 018


“A política se dá na rua”. “A emancipação do homem será total ou não será”. “Fim da liberdade aos inimigos da liberdade”. “É proibido proibir”. Os slogans escritos nos muros de Paris, nas faculdade de Sorbonne, Nanterre e Belas Artes e aos arredores do Teatro Odéon e dos Boulevards Saint-Michel e Saint-Germanin, no idealista ano de 1968, erraram. Estavam equivocados.

Em 1969, os protestos dos estudantes e dos operários eram violentamente reprimidos pelas autoridades. A censura limou a liberdade dos inimigos dos “inimigos da liberdade”. A proibição agora era regulamentada e implacável. E a “emancipação total do homem”, como todos sabemos, não aconteceu.

Muito se falou sobre 1968. A invejável motivação juvenil, os protestos contra a Guerra do Vietnã e o governo Nixon, a passeata dos Cem Mil, a revolta estudantil europeia. Pouco se fala, porém, da ressaca e do desencanto de todo esse espírito revolucionário, em 1969.

1969 é o ano que Emílio Garrastazu Médici toma posse como Presidente do Brasil e instaura a mais violenta repressão policial e cultural da ditadura militar do país. É o ano que membros da seita de Charles Manson iniciam série de assassinatos sanguinários em nome da contracultura. É o ano do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick pelos militantes do Movimento Revolucionário 8 de outubro.

Uma série de fracassos e atitudes impensadas em 1969 simbolizariam a desilusão da aventura festiva de 1968. Gustavo Padovani e Felipe Arra, editores da Revista Wave, analisaram os principais fatos e personagens deste desalentador ano e preparam um especial sobre os 40 anos de 1969. O resultado está espalhado nas páginas da nossa décima oitava edição.



_ ESPECIAL 1969 - A desilusão londrina de Caetano Veloso e Gilberto Gil e a energia apocalíptica dos Rolling Stones no Festival de Altamont

_ ESPECIAL 1969 - As figuras controversas de Médici, no Brasil, e Nixon, nos Estados Unidos, ficariam marcados pelos excessos da ditadura militar e da Guerra do Vietnã

Comentem, espalhem, discutam. “Escrevam por toda parte!”, como diriam os estudantes franceses de 68.

Aquele abraço, e que Deus nos abençoe.

Daniel Faria
Editor-chefe

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

The End

O fim é imenso, é sua própria poesia. Quase não pede retórica. É só enunciá-lo tal como ele é”.

Da referência literária de Nathan Zuckerman, E.I. Lonoff, em Fantasma Sai de Cena, de Philip Roth.

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

Complexo de Zuckerman

Terminei o Fantasma Sai de Cena, de Philip Roth. Quando me envolvo passionalmente com alguma obra, sinto-me inapto para escrever. Woody Allen diz que evita ver filmes de Bergman quando escreve algum roteiro, para não se deprimir. Imaginem o que eu sinto quando leio Philip Roth.

Além disso, a primeira semana de junho me foi desastrosa. Acometido por um ataque de bronquite, também me vi acuado em questões familiares e sentimentais. Agora, espero ter tudo resolvido. Mas nunca sabemos.

Estou obcecado com o tema da incomunicabilidade. A maioria das pessoas cria proteções, cria barreiras invisíveis que não as permitem expor alguma demonstração de humanidade. A inteligência desencanta.

Minha imaginação fervilha de situações. Não sei se prefiro contar histórias ou criá-las. Se há dias que a ficção pode salvar nossas vidas, há dias que a realidade pode nos tirar do casulo. Não sei.

De qualquer maneira, encontro dificuldades em conciliar a desarmonia da minha vida real com os delírios da imaginação. Mas temo o isolamento, temo que, quando exaurir todas as possibilidades de vida que a minha inteligência limitada encontrar, eu esteja desiludido o suficiente para vivê-la.

Ou talvez meu pessimismo exista por eu ter lido um livro cuja temática principal é a velhice, conseqüentemente, a morte próxima, ou também por ter estado doente, ou por complicações familiares, ou por algo parecido.

Do que importa, se em alguns dias, estarei envolvido por sensações opostas graças a novos livros, novos filmes, novas situações? O que importa é documentar aqui, não? Minha susceptibilidade incomoda? Definitivamente, apenas necessito e admiro minha necessidade por escrever. Que a idade não desvie minhas condutas.

Domingo, 31 de Maio de 2009

A Solidão Me Atrai


Estou nas estantes de Literatura Estrangeira, no fundo da biblioteca da UNESP de Bauru, mais precisamente na estante de Literatura Americana, a procurar de maneira não-proposital livros de F. Scott Fitzgerald, e enquanto fico surpreso com o fato de que não há um único exemplar de O Grande Gatsby, avisto uma menina a folhear páginas de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, na mesa ao lado.

O instante dura poucos segundos, ela fecha o livro e trocamos rápidos olhares. Estou a observá-la descaradamente. Nas belas pernas, usa jeans apertado e um moletom azul, seus cabelos são castanhos e longos, é pálida, tem uma expressão fria e aparenta ter a minha idade, vinte e dois anos. Vejo-a caminhar até a saída da biblioteca, silenciosa, sem olhar para os lados.

Na mesma biblioteca, dias depois, estou a ler o caderno de Esportes da Folha de S. Paulo, após a vitória do Corinthians sobre o Fluminense na Copa do Brasil. No sofá em que estou sentado, a mesma menina senta-se ao meu lado, cruza novamente olhares comigo e eu noto que ela é mais linda do que pude perceber da primeira vez. Ainda parece mais séria e circunspecta que antes, mas agora, talvez pelo ar levemente familiar que ela me causa, há certa simpatia em seus olhos, apesar de sua expressão continuar imóvel.

Novamente, ela se mantém silenciosa e não a vejo trocar qualquer palavra ou olhares com quer que seja. Decido inverter os papéis da última vez, e levanto-me primeiro. Cruzamos nossos olhares mais uma vez e caminho até a porta da biblioteca absurdamente curioso a respeito daquela menina. Quero conhecer suas aspirações, quero entender suas inquietações, quero, principalmente, descobrir a razão de tanta solidão. Ao mesmo tempo, no entanto, não quero quebrar seu silêncio tão atraente e decido que não interverei em sua instrospecção.

Em outro dia, estou subindo do Departamento de Comunicações Sociais da FAAC, atravesso o bosque e subo as escadas para entrar na biblioteca, quando vejo a mesma menina sentada em um banco, com um gato sentado em seu colo, amparada por reflexos dos holofotes verdes que iluminam as árvores à frente da escadaria. A imagem é bela; por mais segundos que o bom senso permitiria, fico a contemplar a doce solidão da menina; trocamos olhares por segundos que se prolongam e sinto uma sensação paradoxalmente opressiva e acolhedora, familiar e distante.

As situações se repetem ao longo dos dias. A solidão dela preenche a minha, e criamos uma espécie de intimidade invisível. Na última semana, nos vemos todos os dias. E o ritual é o mesmo; variam apenas os lugares da biblioteca – as prateleiras de Literatura Estrangeira, a Sala de Estudos, o sofá dos jornais, a escadaria.

Porém, na chuvosa noite de sexta-feira, em uma UNESP quase vazia, tive a derradeira sensação de que nossa não-relação teria fim. Ela está sozinha, como usualmente, vestida com as mesmas roupas da primeira vez que a vi, sentada no mesmo banco à frente da biblioteca, quando algumas meninas histriônicas caminham barulhentamente, apontando em sua direção. Ao que me parece, são suas amigas de curso, talvez, ou moram juntas, ou são vizinhas, o que seja.

Sinto uma péssima impressão. Por semanas, contemplei a solidão da menina dos cabelos castanhos, vi beleza em seu silêncio profundo, em seus movimentos gelados e minimalistas, e agora outras meninas excessivas, seus opostos, caminham até ela. Não me parece justo que elas e suas vozes altas e irritantes, seus exageros deselegantes, distorçam a admiração da serenidade e da aristocracia natural que ela possui.

Quando as garotas barulhentas passam por ela – sempre imóvel - e se dirigem a uma outra menina que estava no mesmo caminho, sinto uma calma inexplicável. Minha ansiedade desaparece. Não era ela o alvo das meninas. Tudo permanece em silêncio e continuamos os dois em notória reclusão, como se tivéssemos assinado um pacto invisível que nos impede de estabelecer qualquer vínculo com outras pessoas, ao menos enquanto estamos no mesmo ambiente.

Meu relaxamento diante de tal situação, diante do medo da quebra do silêncio, parece comovê-la. Pela primeira vez, ao olhar-me notadamente aliviado, ela sorri. Um sorriso discreto, ao qual respondo com outro, ainda mais tímido. Meu alívio é tanto que, feliz, volto à biblioteca, sento-me no sofá e permaneço estático, imutável, com a mente vazia e frívola e o coração leve e suavizado.

Anotações

Dos três empecilhos freudianos à consumação da felicidade, a saber, a deterioração física, os fenômenos naturais e a convivência humana, a terceira é, quase sempre, a mais analisada e a de maior dificuldade de compreensão. Talvez porque haja, supostamente, a possibilidade de moldar nosso destino por meio dos nossos relacionamentos. A morte é evidente, as interferências da natureza são inevitáveis, mas há a sensação de que, responsáveis e senhores de nossos atos, poderíamos selecionar aqueles que nos comprazem, que nos agradam, que não nos prejudicam. Pura ilusão.

Pura ilusão? “What a world. It could be so wonderful if it wasn’t for certain people”, diria a mãe do narrador de Radio Days, de Woody Allen. Há a possibilidade de se desprezar as pessoas, e há a possibilidade de ser desprezado sem que, em ambos os casos, as conseqüências não interfiram nos projetos de felicidade de cada um?

(Tenho intenção de criar uma personagem que é incapaz de tomar decisões conscientes a respeito das pessoas com quem convive. Em seu trabalho, tolera as colegas de serviço, que despejam problemas de toda ordem em seus ouvidos. Em casa, cuida de três irmãos mais novos, e deve agir como ponto de equilíbrio na relação problemática dos pais. O namorado é o tipo egocêntrico, um advogado com delírios de grandeza, pouco atencioso à sonhadora personagem. Obviamente, em determinado momento, a personagem se revoltaria com a tal situação. Ainda não me decido se tal revolta ocasionaria uma decisão trágica ou odiosa.)

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Acorda, Amor

No princípio, encontro-me sozinho em um cenário cinzento e desolado a céu aberto. Não há paredes, não há ruídos, nada que possa perturbar o aconchegante silêncio. Subitamente, porém, estou rodeado por dezenas e dezenas de pessoas, vestidas em cores berrantes, a contrastar o até então inóspito ambiente. Reconheço, pouco a pouco, a aparência de cada um. São amigos de infância, colegas de trabalho, parentes distantes, professores. Todos murmuram palavras inteligíveis e caminham continuamente em círculos, a me rodear. Tão repentinamente quanto chegaram, saem, somem, se mandam. Tão rápido que chega a nausear.

Quando o ambiente torna-se mais uma vez cinzento e silencioso, ouço passos. Contemplo, então, uma pequena fila formada por meu pai, minha mãe e minha irmã, nesta sequencia. Interrompo o silêncio gritando por eles, “pai!”,”mãe!”, “Clara!”, mas é inútil, nada ouvem. Passam por mim e não consigo, por mais que me esforce, cruzar algum olhar, fazer notar qualquer movimento. Apenas caminham, e já suas imagens estão a se dissipar por completo quando minha mãe olha, com grande pesar, para trás.

Prostro-me ao chão e o silêncio volta a ser tão rigoroso que posso ouvir minhas lágrimas caindo. Não há, porém, tristeza alguma. Há o cansaço, apenas. Quero deitar-me em cama cômoda, coberto por lençóis de seda. Quero afastar-me das surpresas, das excessivas novidades.

Mas meus ímpetos de preservação e acomodação são ignorados mais uma vez. Primeiro, o ar assume combinações inicialmente incompatíveis de aromas, mas que são ao mesmo tempo agradáveis e sedutores. Há jasmim, violeta, flor de laranjeira, um mosaico de cheiros e sensações reconhecíveis em particular.

Qual não é a minha surpresa ao descobrir que as fragrâncias estão acompanhadas de belos corpos femininos, que se colocam ao meu redor em trajes curtos. Não consigo definir seus rostos, cobertos por seus cabelos límpidos e insinuantes. Então já não há mais cansaço, não há mais desolação e quero somente deleitar-me com essas mulheres todas.

Deito-me, tarado e desejoso, enquanto elas contornam-me. Mas deveria ter aprendido com os acontecimentos anteriores que, nesta terra estranha, nada é o que parece. Após comporem uma espécie de floral frutado, um círculo das delícias, cada uma das mulheres vira-se para mim e grita com a maior voracidade possível. Pasmo com a agressividade repentina, vejo-me acuado. Reconheço suas vozes; são amantes do passado, namoradas de anos e anos, casos de uma única noite, amores platônicos, mulheres que desprezei friamente. Há espaço até para uma paixão infantil que grita com voz extremamente irritante.

Em comum, todas estão a me ofender das maneiras mais vis possíveis. Ajuntam-se sobre mim, vociferam como animais, chegam mesmo a me chutar. O espantoso é que me ofendem em diversas línguas, e ouço ofensas em português, francês, inglês, alemão, sueco, tadjique, persa, grego, hebraico, mandarim. São tantos destratos exóticos que meus ouvidos passam a receber de bom grado os “maldito” e “covarde” que consigo captar em meio a balbúrdia. Apenas Juliana permanece imóvel, rindo arteiramente da minha situação.

Prestes a ser esfolado vivo, eis que surge Lígia, impávida e majestosa, como uma aristocrata britânica, e caminha lentamente por entre as outras todas, com seus olhos verdes a reluzir seu desfile. É a salvação, penso, quando ela se coloca estática ao meu lado, olhando seu pobre marido em estado tão humilhante. Para meu desgosto, Lígia não pensa de tal maneira, e com vontade, escarra brutalmente em mim. O urro universal de todas as mulheres foi tão ensurdecedor e vexatório para mim que acordei.

E acordei sobressaltado, ainda temeroso com o pesadelo. Levantei-me instintivamente e fui ao banheiro, não sem antes olhar o relógio da parede da cozinha que anunciava nove horas e dezessete minutos, o que significa que estou dezessete minutos atrasados para o horário estabelecido dos meus afazeres costumeiros. Simulo alguma pressa e estou a lavar o rosto e então escovo os dentes e me arrependo durante a escovação porque lembro que ainda não tomei café e tomar café com gosto de flúor não é agradável. Não sei se interrompo a escovação e enquanto penso se interrompo ou não o que estou a fazer, continuo escovando os dentes. Então decido que irei escovar os dentes e não tomar café imediatamente, mas apenas depois que o gosto do flúor já não afetar meu paladar.

Acabo de realizar minha higiene bucal e vou à cozinha, revestida de ladrilhos florais tão belos e assépticos, à maneira de Lígia, e noto que ela preparou a mesa, e há uma jarra de suco de abacaxi adornada com pedaços de hortelã e há pães já cortados com presuntos, mas não há café, o que me faz também lembrar o fato de Lígia detestar hálito de cafeína e, portanto, ela não faz café para mim há algum tempo. Há ainda um bilhete, escrito à mão, “não se atrase, amor”.

Após alimentar-me, volto ao quarto e visto minhas calças em frente ao espelho e a melodia de “By Strauss” surge à minha mente, e passo a me imaginar em um cenário art déco, a usar uma camisa branca, sapatos de verniz e cartolas de seda em uma Nova York cintilante e blasé dos anos 30, e acho graça na patetice do meu pensamento enquanto me visto. Sequelas do sonho, talvez, passo a balbuciar uma ilimitada série de canções em línguas diversas, e canto em voz pequena versos como “tornerà un altro inverno, cadranno mille petali di rose, la neve coprirà tutte le cose, e forse un po' di pace tornerà”, seguido de “dis, que fais-tu là, mon soleil, sur ce banc, le regard perdu sous tes cheveux d'argent”, para concluir com “eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema, não gosto de samba, não vou à Ipanema”, em homenagem à minha adorada Lígia. Meus devaneios musicais terminam quando olho novamente de relance ao relógio da parede da cozinha e percebo que os ponteiros acusam nove horas e vinte e oito minutos, o que significa que estou agora vinte e oito minutos atrasados. E, apesar do pesadelo, do atraso e da falta de café, estou sereno e em paz suficiente para ir trabalhar.

Domingo, 24 de Maio de 2009

A Noite


Hoje, quando acordei, você ainda dormia.
Aos poucos, acordando, senti sua respiração leve. E através dos cabelos que escondiam seu rosto, vi seus olhos fechados e senti uma comoção subindo à garganta. Tive vontade de gritar e acordá-la, pois o seu cansaço era profundo e mortal.
Na penumbra, a pele dos seus braços e pescoço estava viva e eu a sentia morna e seca. Queria passar os lábios nela, mas o pensamento de perturbar seu sono e de ainda tê-la em meus braços me impedia. Preferia tê-la assim, como algo que ninguém tiraria de mim, pois só eu a possuía.
Uma imagem sua para sempre.
Além do seu rosto, via algo mais puro e mais profundo onde eu me refletia. Eu via você numa dimensão que colocava em perspectiva todo o tempo da minha vida. Todos os anos futuros e os que vivi antes de conhecê-la, mas já pronto para encontrá-la.
Este era o pequeno milagre de um despertar. Sentir pela primeira vez que você me pertencia não só naquele momento, e que a noite era eterna ao seu lado. No calor do seu sangue, dos seus pensamentos e da sua vontade, que se confundia com a minha.
Por um momento, entendi o quanto a amava, e foi uma sensação tão intensa que meus olhos se encheram de lágrimas.
Eu pensava que isso jamais deveria terminar, que toda nossa vida deveria ser como esse despertar. Senti-la não minha, mas uma parte de mim. Uma coisa que respira comigo e que nada pode destruir, a não ser a indiferença de um hábito que considero a única ameaça.
Então, você acordou, e sorrindo, ainda adormecida, me beijou, e eu senti que não havia nada a temer. Que seriamos sempre como aquele momento, unidos por algo que é mais forte que o tempo e o hábito.

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Suporte Para A História

"Eis porque os verdadeiros artistas nada desprezam: eles se forçam a compreender em vez de julgar. E, se eles tem uma escolha a fazer neste mundo, não pode ser senão aquela de uma sociedade onde, segundo a insigne palavra de Nietzsche, não reinará mais o juiz mas o criador, quer seja ele trabalhador ou intelectual. Da mesma maneira, o papel do escritor não se separa dos árduos deveres. Por definição, ele não pode colocar-se, hoje, a serviço dos que fazem a História, ele está a serviço dos que a suportam.

Cada geração, sem dúvida, julga-se destinada a refazer o mundo. A minha, entretanto, sabe que não o reformará. Mas o seu papel talvez seja maior. Consiste em impedir que o mundo se desfaça. Herdeira de uma história corrompida onde se misturam as revoluções decaídas, as técnicas que enlouqueceram, os deuses mortos e as ideologias extenuadas, onde poderes medíocres podem, hoje, destruir tudo, mas não sabem mais convencer, onde a inteligência se abaixou ao ponto de se tornar a escrava do ódio e da opressão, esta geração foi obrigada a nela própria e em torno dela restaurar, a partir unicamente de suas negações, um pouco daquilo que faz a dignidade de viver e morrer."


Parte do belíssimo discurso do argeliano Albert Camus durante a entrega do Prêmio Nobel na Sala Dourada da Municipalidade de Estocolmo, em 17 de outubro de 1957. Premiado aos 44 anos, Camus é ainda um dos mais jovens escritores laureados com o Nobel de Literatura. Impressiona por sua consciência plena, sua atualidade e, principalmente, pelo humanismo coerente e decente, características tão próprias do grande escritor e pensador que Camus foi.

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

O Amor Que Causa Náuseas

Em momento crucial do romance A Náusea, de Jean-Paul Sartre (e quem pretende ler o livro, por favor, pule o texto, pois estarei descrevendo talvez o principal instante da história), o protagonista Antoine Roquentin reencontra Anny, anos após o fim do relacionamento amoroso dos dois. Roquentin passa todo o livro perplexo com a descoberta da ausência de qualquer sentido em sua vida. Para ele, apenas a presença de Anny poderia confortá-lo do peso da existência, graças aos ditos “momentos perfeitos” que passaram juntos.

No desiludido e fatídico encontro, o ex casal debate a verdade sobre os tais “momentos perfeitos”, momentos tais assim descritos por Anny e rebatidos por Antoine:

- Há primeiro os sinais que os anunciam. Depois a situação privilegiada, lentamente, majestosamente, entra na vida das pessoas. Então a pergunta que se coloca é de saber se queremos fazer disso um momento perfeito.

- Sim. Em cada uma das situações privilegiadas há certos atos que é preciso fazer, atitudes que é preciso tomar, palavras que é preciso dizer – e outras atitudes são estritamente proibidas. É isso?

- Pode ser...

- Em suma, a situação é a matéria: é algo que exige ser trabalhado.

- É isso. Primeiro seria preciso estar mergulhado em algo de excepcional e sentir que se poderia organizar isso. Se todas as condições tivessem sido cumpridas, o momento teria sido perfeito.

- Em suma, é uma espécie de obra de arte.

- Você já me disse isso. Mas não: era... um dever... Era preciso transformar as situações privilegiadas em momentos perfeitos. Era uma questão moral. Sim, pode rir à vontade: de moral.

Mais adiante, na discussão, Anny relembra com detalhes o que seria, supostamente, a representação de um “momento perfeito”.

- Naturalmente você não se lembra da primeira vez que o beijei?

- Sim, muito bem. Foi nos jardins de Kiev, às margens do Tâmisa.

- Mas o que você nunca soube é que eu me sentara sobre umas urtigas: meu vestido estava levantado, minhas coxas estavam cobertas de picadas e, ao menor movimento, havia novas picadas. Você absolutamente não me excitava, eu não sentia um desejo especial de seus lábios, o beijo que ia lhe dar era de uma importância muito maior, era um engajamento, um pacto. Então você compreenderá que aquela dor era irrelevante, eu não poderia pensar em minhas coxas num momento como aquele. Não bastava não demonstrar meu sofrimento: era preciso não sofrer.

Durante mais de vinte minutos, durante todo o tempo em que você insistia para receber aquele beijo que eu estava decidida a lhe dar, todo o tempo que me fiz de rogada – porque era preciso dar o beijo segundo as regras -, consegui me anestesiar completamente. No entanto, Deus sabe como minha pele é sensível: não senti nada até nos levantarmos.

É isso, é exatamente isso. Não há aventuras – não há momentos perfeitos... Perdemos as mesmas ilusões, seguimos os mesmos caminhos.

- E então você se deu conta de que haveria sempre mulherezinhas aos prantos, ou um sujeito ruivo [Antoine é ruivo], ou qualquer outra coisa para estragar seus efeitos.

- Sim, naturalmente.

Por fim, Anny conta a Antoine, com displicência e até certa preguiça, como conserva os “momentos perfeitos” em sua mente:

- Vivo no passado. Recordo tudo o que me aconteceu e ordeno-o. Assim de longe não dói, e quase nos deixaríamos enganar. Toda a nossa história é bastante bela. Dou-lhe uns retoques e o que fica é uma sequencia de momentos perfeitos. Então fecho os olhos e tento imaginar que ainda vivo dentro deles. Tenho outros personagens também. É preciso saber se concentrar.

A discussão é longa e eu, obviamente, supri diversos trechos. Há, em todo o livro, a sensação de pessimismo do narrador Antoine diante de sua condição de ser existente. Por existir, e por existir em ambientes que não lhe dizem respeito e não projetam sentido direto em sua vida, Antoine vê suas esperanças de vida projetadas todas sobre a possibilidade do reencontro com Anny, que, por sua vez, parece ter desistido de buscar sentido em sua existência e se encontra resignada com isso.

A resignação de Anny perturba Antoine, mas não tanto, visto que o próprio parecia o tempo inteiro apenas querer confirmar sua condição de estar também resignado.

(Tanto Anny quanto Antoine são personagens com cerca de trinta anos, e se o livro informa corretamente suas respectivas idades, confesso que não me recordo. O que é notável é o fato de que, em tal idade, o suposto primeiro estágio da vida adulta e matura, as pessoas passam a reconhecer no passado a possibilidade de vivenciar, ainda que pela memória, “momentos perfeitos” que, talvez, não tenham tido tão perfeitos assim.

Quem sabe, por tal razão, a maioria das pessoas se resigne a aceitar o passado como perfeito e se estimulam [através de músicas da época, por exemplo] a revivê-lo, enquanto ignoram solenemente as possibilidades do presente?)

Que criamos, todos nós, situações fantasiosas para sublimar o comum, me parece óbvio. Principalmente por questões sensoriais (a música, notadamente o jazz, é fundamental para entender o romance de Sartre), que podem tornar a situação em si muito mais bela do que se concebida distante do espectro da imaginação.

O que fazer, portanto? Abstrair-se das fantasias e firmar os pés em um mundo real, cru e pragmático? Bem, isso não funcionaria para mim. A resignação de Anny em desprezar a falta de verdade nos “momentos perfeitos” é triste, porque a faz ignorar a beleza e a criatividade da imaginação, do “entregar-se” ao deleite, ao prazer, à ficção.

O amor. Talvez não seja tão belo na vida real quanto as músicas compostas ao seu respeito, quanto aos filmes que procuram representá-lo, ou os poemas que se propõem a descrevê-lo. Mas, no fim das contas, o amor apenas existe com todas as fantasias inerentes ao seu caráter mais precioso, que é a ilusão. Sem a ilusão, o amor é tão perfeito e prazeroso quanto sentar-se sobre urtigas.

"Os Outros", por Bergman.


Em entrevista ao jornal sueco Sydsvenska Dagbladet, em maio de 2002, o cineasta Ingmar Bergman fez comentários- por vezes extremamente ácidos – sobre alguns de seus mais conhecidos colegas de profissão, As pessoas que frequentam meu blog sabem da minha enorme preferência por Bergman e, apesar de discordar de alguns de seus posicionamentos (principalmente sua avaliação sobre Orson Welles), tenho-o por voz lúcida e sincera sobre tudo que diz respeito ao cinema, a arte que ele entendeu melhor que ninguém.
François Truffaut
“Gosto muito de Truffaut. Sinto uma enorme admiração pelo seu jeito de atrair a audiência, seu jeito de contar a história... A Noite Americana [1973] é adorável, e outro filme que eu gosto de ver é O Garoto Selvagem [1970], com seu belo humanismo."
Jean-Luc Godard
“Nunca tomei nada de proveitoso de seus filmes. São construídos de um modo falsamente intelectual, completamente mortos. Desinteressantes do ponto de vista cinematográfico e infinitamente aborrecidos. Godard aborrece demais. Ele fez filmes para os críticos. Um de seus filmes, Masculino, Feminino [1965], foi filmado aqui na Suécia. Era insuportavelmente maçante."
Orson Welles
“Eu nunca gostei de Welles como um ator, porque ele não é realmente um ator. Em Hollywood você tem duas categorias: os atores e as personalidades. O Welles foi uma personalidade enorme, mas quando ele interpreta Otelo, por exemplo, tudo vai por água abaixo. A meu ver, ele é um diretor de cinema infinitamente superestimado."
Michelangelo Antonioni
“Ele fez duas obras-primas, não é necessário incomodar-se com o resto. Um é Blow Up [1966], que vi muitas vezes, e o outro é A Noite [1961], também um maravilhoso filme, muito por causa da presença da Jeanne Moreau jovem. Na minha coleção tenho uma cópia de O Grito [1957], e que filme chato! Acho triste. Antonioni nunca aprendeu realmente o ofício... Ele se concentra em imagens únicas, não percebe que o filme é um fluxo rítmado de imagens, uma sequencia viva de movimentos. Sem dúvida, há momentos brilhantes em seus filmes. Mas não sinto nada por A Aventura [1960], por exemplo. Apenas indiferença. Nunca entendi porque Antonioni foi tão aclamado assim. E sempre achei a sua musa Monica Vitti uma péssima atriz."

Federico Fellini
Nós iríamos trabalhar juntos com Kurosawa, certa vez. Faríamos uma história de amor cada um para um filme produzido por Dino de Laurentis. Fui até Roma com meu roteiro e passei muito tempo com Fellini enquanto esperávamos por Kurosawa, que não pôde sair do Japão por causa da sua saúde debilitada, e o projeto foi por água abaixo. O Fellini estava terminando Satyricon [1969. Fiquei um bom tempo no estúdio e vi o modo como ele trabalhava. Adorei-o , tanto como diretor e como pessoa, e ainda assisto à seus filmes, como A Estrada [1954] e sinto aquele saudosismo da infância...

Diretores Americanos
Entre os diretores de hoje, claro que fico impressionado por Steven Spielberg e Scorsese, e Coppola, ainda que ele pareça ter mesmo deixado de fazer filmes, e Steven Soderbergh — todos eles tem algo para dizer, eles são apaixonados pelo que fazem e parecem ter uma atitude idealista sobre o processo de produção de filmes. Traffic [2000], de Soderbergh, é fantástico. Outros dois grandes exemplos da força do cinema americano é Beleza Americana [1999, de Sam Mendes] e Magnólia [1999, de Paul Thomas Anderson].