sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

DFW

Na posição de alguém que passou pela faculdade e agora já está há dois na pós-graduação tenho de confessar uma distância quase... esses meninos ricos de jeans rasgado cujo feito de protestar contra o apartheid foi boicotar a maconha sul-africana. Silverglade chama essa gente de Cativo Interior. A ingenuidade arrogante, a condescendência na entre aspas compaixão que sentem por aqueles que estão entre aspas presos ou escravos das escolhas do estilo de vida ortodoxo americano. E por aí vai. O fato de os Cativos Interiores nunca considerarem que é a probidade e economia do re... não ocorre a eles que eles próprios transformaram a eles próprios no destilado de toda a cultura que ridicularizam e contra a qual se declaram, o narcisismo, o materialismo, a complacência e a conformidade inconsciente — nem a ironia de que a risonha teleologia dessa entre aspas iminente New Age é exatamente o mesmo deslize permissivo que foi o Manifest Destiny, ou o Reich, ou a dialética do proletariado, ou a Revolução Cultural — tudo a mesma coisa. E nem ocorre a eles nunca que a certeza de que são diferentes é o que faz eles serem iguais.

Trecho de Breves entrevistas com homens hediondos, de David Foster Wallace

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Libertação

Quando se fala de "salvação" hoje em dia, nos círculos em que esse assunto ainda é tratado, o conceito é quase sempre associado a garantir o céu depois da morte. Uma pessoa é "salva" quando Deus a conta entre aqueles que serão recebidos em sua presença por ocasião da morte ou em algum momento depois dela. Esse uso dos termos "salvação" e "salvo" priva a terminologia do sentido geral de libertação que ela apresenta na Bíblia como um todo.

Essa perda é decorrente não apenas de uma obsessão de longa data com o perdão dos pecados e o controle sobre o perdão como os únicos elementos verdadeiramente essenciais, mas também do sucesso dos evangélicos em enfatizar, nos últimos séculos, a importância fundamental do perdão.

Se acrescentamos a ideia de que o perdão é estritamente uma questão do que alguém crê (ou professa crer), temos a receita para o atual cristianismo consumista sem discipulado que nossa geração recebeu como herança.

Se, no entanto — sem negarmos, de maneira alguma, a importância essencial da crença correta e do perdão dos pecados —, entendermos a "fé salvadora" como confiança em Jesus Cristo, em sua pessoa como um todo, e não apenas em parte daquilo que ele fez ou disse, veremos a salvação como algo que liberta o discípulo, a pessoa como um todo, e a conduz à vida plena no reino de Deus. Isso inclui a transformação interior progressiva do cristão, não como condição para entrar no céu — salvação no sentido comum —, mas como parte natural de um todo que também abrange uma nova vida, um crescimento espiritual constante e a entrada no céu como resultado natural e não como foco central. A libertação será, de fato, uma cura dupla da enfermidade do pecado, livrando-nos da ira e, ao mesmo tempo, tornando-nos puros.

Essa libertação é graça em todos os sentidos. É o dom da vida num relacionamento constante e interativo com o Senhor, Salvador e Mestre vivo. Como o próprio Jesus disse: "Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17.3). No sentido bíblico, o "conhecimento* é um relacionamento interativo. É o relacionamento redentor do discípulo com o mestre, no qual o favor imerecido é recebido desde os primeiros estágios de arrependimento e perdão até as dádivas mais avançadas de visão, caráter, serviço e poder (At 6.8). A formação espiritual é simplesmente o processo pelo qual "[crescemos], porém, na graça [certamente não no perdão!] e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (2Pe 3.l8).

Trecho de A grande omissão, de Dallas Willard

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sobre a fraternidade

"Mas vamos nos ater ao que interessa. Eu acredito de fato que a fraternidade é o que torna um homem humano. Se devo a Deus uma vida humana, é aqui que eu fracasso. 'O homem não vive só em si mesmo, mas no rosto do seu irmão... Cada um contemplará o Pai Eterno e o amor e a alegria abundarão'. Quando os apóstolos do temor lhe dizem que os outros só servem para distraí-lo da liberdade metafísica, está na hora de você deixá-los falando sozinhos. A questão verdadeira e essencial é a da nossa serventia para outros seres humanos e da serventia deles para nós. Sem essa serventia você nunca teme a morte, você a cultiva. E a consciência, quando não compreende claramente para que viver, para que morrer, só pode agredir e ridicularizar a si própria".

Herzog, de Saul Bellow

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Nascer do alto

Havia um homem do partido dos fariseus chamado Nicodemos, um destacado líder entre os judeus. Certa vez, ele visitou Jesus, tarde da noite, e disse: “Rabi, sabemos que o senhor é um mestre que vem de Deus. Ninguém poderia realizar esses atos que revelam a realidade de Deus se Deus não fosse com ele”.

Jesus disse: “Você está absolutamente correto. Preste atenção: a não ser que alguém nasça do alto, não é possível ver aquilo que estou apresentando — o Reino de Deus”.

“Como pode alguém nascer, se já nasceu e cresceu?”, estranhou Nicodemos. “Não é possível entrar de novo no útero materno e nascer outra vez. E que história é essa de ‘nascer do alto’?”.

Jesus respondeu: “Você não entende. Deixe-me dizer de novo. A não ser que alguém se submeta a essa criação original, a criação na qual o ‘vento pairava por sobre as águas’, o invisível movendo o visível, um batismo para uma nova vida, não lhe será possível entrar no Reino de Deus. Quando você olha para um bebê, vê apenas isto: um corpo que se pode contemplar e tocar. Mas a pessoa que tem um nascimento interior é formada por algo que você não pode ver nem tocar — o Espírito — e se torna um espírito vivo.

“Portanto, não fique surpreso quando digo que você tem de ‘nascer do alto’ — de fora desse mundo, por assim dizer. Você sabe muito bem que o vento sopra pra lá e pra cá. Você o ouve sussurrando pelas árvores, mas não tem ideia de onde ele vem nem para onde vai. O mesmo acontece com aquele que é ‘nascido do alto’ pelo vento de Deus, o Espírito de Deus”.

Nicodemos perguntou: “O que o senhor quer dizer com isso? Como acontece?”.

Jesus disse: “Você é um mestre respeitado em Israel e não conhece o básico? Ouça com atenção. Esta é a pura verdade. Falo apenas a respeito do que conheço por experiência. Dou testemunho apenas do que tenho visto com os próprios olhos. Não me baseio em boatos. Mas, em vez de encarar as evidências e aceitá-las, você as evita com perguntas. Se, quando digo coisas claras como o dia você não acredita em mim, por que eu falaria de coisas que você não pode ver, das coisas de Deus?

“Ninguém jamais esteve na presença de Deus senão aquele que veio daquela Presença, o Filho do Homem. Assim como Moisés levantou a serpente no deserto para que o povo pudesse vê-la e crer, é necessário que o Filho do Homem seja levantado — para que todos os que olharem para ele com confiança e com esperança legítima recebam a vida real, a vida eterna.

“Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho, seu único filho, pela seguinte razão: para que ninguém precise ser condenado; para que todos, crendo nele, possam ter vida plena e eterna. Deus não se deu ao trabalho de enviar seu Filho apenas para poder apontar um dedo acusador e dizer à humanidade como ela é má. Ele veio para ajudar, para pôr o mundo nos eixos outra vez. Quem confiar nele será absolvido, mas quem não confiar terá sobre si, sem o saber, uma sentença de condenação. E por quê? Porque não foi capaz de crer no único Filho de Deus quando este lhe foi apresentado.

“Esta é a situação: a luz de Deus invadiu o mundo, mas a humanidade inteira correu para as trevas. Fugiram porque não estavam interessados em agradar a Deus. Aquele que pratica o mal, é viciado em negar a realidade e iludir-se e odeia a luz de Deus não vai querer se aproximar dela, para não ser submetido a uma exposição dolorosa. Mas quem crê e vive na verdade e na realidade recebe de coração a luz de Deus, de modo que sua obra pode ser vista, pois é a obra de Deus”.

João 3.1-21, A Mensagem, de Eugene Peterson

sábado, 26 de março de 2011

Sobre o sono

O bonito do sono é que cada um está finalmente sozinho, sem os outros. Cada um numa pequena estrela, cada um em seus sonhos, cada um a milhões de quilômetros de todo o resto e até de quem dorme a seu lado na cama. No sono não existem comitês, no sono não há tarefas nem a gravidade da situação nem o imperativo desta hora nem a enormidade do desafio. Tampouco existe uma lei de que no sono deve-se ter consideração com o prezado próximo. Cada um por si. Cada um na sua. Quem tem uma viagem viaja no sono para um lugar onde o esperam, para casa ou exatamente ao contrário. Quem merece amor no sono recebe amor. E quem solidão, solidão. Quem merece apreensão, arrependimento e castigo é castigado e suspira no sono. Mesmo os velhos que já tiveram um enfarte, ou dois, atacados de reumatismo, sofrendo de hemorroidas, no sono são de repente jovens cavaleiros e até as crianças de suas mães. Quem quer ter prazeres os tem a mancheias e quem precisa sofrer ganha sofrimentos exatamente na sua medida. Tudo é livre e abundante. Quem quiser voltar a dias que já se foram tem esses dias de volta. Quem tem saudades do lugar que deixou há muito tempo ou anseia chegar a um lugar no qual nunca pisou tem condução expressa e gratuita a seu destino. Quem tem medo da morte ganha dela uma pequena dose para se vacinar e não ter mais medo, quem quer a guerra recebe um modelo de luxo e quando se precisa de mortos eles podem ser chamados para entrar no sono.

Trecho de Uma certa paz, de Amós Oz.

terça-feira, 15 de março de 2011

Lucas 18:17

“Não há terreno impossível para o Ciclista Urbano”. Inicia-se assim Mãos de Cavalo, segundo romance do escritor gaúcho Daniel Galera. “Não há terreno impossível”. A descrição do acidente de bicicleta do “Ciclista Urbano”, um guri de dez anos, próximo à avenida Guaíba, em Porto Alegre, provoca-me a lembrança da indestrutibilidade da infância. Pouco a ver com o ímpeto desafiador da adolescência. Falo da sensação de impossibilidade da tragédia que é — ou assim comigo foi — tão própria aos dez, onze anos de idade. No livro de Galera, o pequeno ciclista se estropia todo em sua Caloi aro 20 de freio de pé após colidir com uma calçada. Segundos antes, ele possuía tamanha confiança em si. Não tinha como haver terreno impossível.

Quando criança, exerci minha fé de maneira antiteológica algumas vezes. Numa dessas ocasiões, decidi atravessar, em minha Shimano de 21 marchas, uma das ruas mais íngremes de Gália, a cidade onde nasci, sem colocar as mãos no guidom. E mais, de olhos fechados. E, ainda mais, com as mãos agarradas firmemente num crucifixo que usava então — escondido, porém, por ser um objeto de uso tradicionalmente católico, repreendido pela minha igreja, batista. Ao término do quarteirão, um cruzamento de vias, de movimentação constante. Embora a preferência a mim pertencesse, há, nas cidades pequenas do interior, certo desleixo dos condutores quanto a placas de PARE. Digo isso para acentuar que, por trás do teor infantil do desafio a que me propunha, havia algum risco, e não duvido que poucos teriam coragem — ou a fé — para um intento desses. Mas Deus me salvaguardaria de qualquer mal.

Aprumei-me no topo da rua, nome oficial rua José Garib, que a cidade conhece como avenida Walter Gago, porque morava antigamente ali um famigerado Walter, que, como é de se presumir, possuía problemas de dicção. Enfim. Munido da fé, comecei a mover os pedais, afixei as pernas, agarrei o crucifixo com as mãos e fechei os olhos. O percurso não durou mais que trinta segundos, se tanto. Confiante, em nenhum momento hesitei. Concluí, venturoso, a minha prova de fidelidade a Deus.

Após o menino de seu livro cair da bicicleta e se machucar, Galera escreve: “Ele não é mais o Ciclista Urbano. Agora é apenas um guri de dez anos”. Quando, infantilmente, assinei meu contrato de fidelidade a Deus ao cruzar uma rua movimentada com as mãos distantes do freio e do guidom, vi em mim não a fé por vezes tão racional do indivíduo que hoje sou, com 24 anos completados amanhã, dia 16. Vi em mim o distanciamento do medo, a improbabilidade de que acontecesse o erro. Como conceber, aos dez anos, que seria possível eu me machucar?

Anos depois, por ocasiões de natureza diversa, as quais não pretendo expor no momento, ouvi minha mente se perguntar: O medo aniquila a fantasia? Creio que a idade adulta sobreponha a asfixia da realidade sobre os prazeres da imaginação. Algo óbvio, peço desculpas. Mas questionei-me hoje: há tempo para encontrar-se com Deus ao cruzar uma avenida movimentada? E, mais importante, há coragem — ou falta de medo, que me parece mais exato — de indagar pela existência dele, de requerer dele alguma exposição, digamos, concreta, ainda que pareça paradoxal exigir concretude daquele que não se vê, não se toca, não se constitui em forma física? Oh, quanto tempo mais de cartórios, escritórios de contabilidade, bancos e saguões de espera para estar eu apto a integrar vossas fileiras, homens de pequena fé?

Tenho reservas quanto a reclamar das provações da idade adulta. Há quatro anos assim procedo. Leio, no momento, As vidas de Dubin, de Bernard Malamud, e causa-me tristeza a solidão serena dos personagens do livro, todos com mais de cinquenta anos. São personagens de ficção? São, mas são personagens com a idade de meus pais. Se literatura é empatia — é espelho, portanto, retorcido ou ornamentado, mas espelho —, há de se apreender, por menor que seja o reconhecimento, a angústia. Ela se encontra presente em todas as obras clássicas: pense em alguém mais angustiado que Pedro Bezukhov, por exemplo. Hamlet, talvez? A indefinição de caráter, a irregularidade moral, o sujeito prensado na dúvida: tal é o homem, tal é o modo que a literatura há de retratá-lo.

Mas escrevo sobre o medo. Apressarei a conclusão: dia desses, decidi subir numa bicicleta novamente, após anos. Desde aquela vez, li vários tratados teológicos, desenvolvi métodos de estudos espirituais, considero-me um cristão mais completo, se este é o termo que se deve utilizar. Após uns cem metros numa rua plaina, numa vizinhança semideserta, com os braços tensionados, as mãos pressionando os freios a todo instante, desisti de meu intento. Tive medo de cair.

sexta-feira, 4 de março de 2011

A justificativa da chatice

Eu não gosto muito de ser opaco, de parecer que tem alguma coisa que nem eu sei o que é, e que ninguém sabe o que é. Eu não gosto. Então, assim, eu me autodesmistifico muito. Eu acho um pouco angustiante a pessoa ser, parecendo que a pessoa é possuída por alguma coisa de que ela própria não tem consciência, de que os outros não podem entender. Não quero ser isso. Bob Dylan quer ser isso, eu não quero. Mesmo porque as pessoas usam isso para impor poder abusivo sobre as outras. É uma questão, também, de necessidade de justiça. Não gosto de obscurantismo, não gosto de me deixar enganar e não gosto de enganar os outros. É isso que eu acho, que eu chamo de lúcido. Eu sou do sol, eu quero ser lúcido e feliz. É muito difícil, mas eu fico fazendo esforço, tentando. Prefiro me explicar. Pessoas de outros países, que vêem o filme do Pedro Almodóvar, eu estou cantando Cucurucu Paloma. Aí, a pessoa fala assim: “Puxa, mas é uma coisa mágica!”. E depois a pessoa me conhece, me vê conversando e, às vezes, conversa. Muitas pessoas ficam assim, meio, parece que decepcionadas. Prefeririam que eu fosse uma pessoa inescrutável, chegasse perto de mim e eu tivesse aquilo como, sabe? Como uma coisa misteriosa. Gostariam de encontrar alguém que quase não soubesse falar, que fosse tomado por aquela coisa, mas eu não sou essa pessoa. Eu sou eu, esse cara aqui, que está aqui!

Caetano, no documentário Coração Vagabundo [2009, direção de Fernando Grostein Andrade]. Engraçado. No mesmo dia, vi Don’t Look Back, documentário sobre a turnê londrina de 1965 do citado Dylan e percebi como há dois modos de chatice incongruentes: o chato que é chato por falar demais de si mesmo, e o chato que é chato por falar demais.

A Revista Wave não existe mais.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Guarda-louça

Do pilar alumiado, na sala isolado,
Sob o ornato angular ameiado,
Vê-se o assoalho de polido parquê;
Frisos e gravuras, templo grego
Dietrich não percebe, não lê,
Relíquia oitocentista, alê, alê
Aleluia, alê

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

"Não compreendo"

Ainda sobre o livro de , G. K. Chesterton, o autor de Introdução ao livro de Jó, reproduzido na última edição da Revista Wave, compara-o positivamente à Ilíada em O Homem Eterno, no capítulo "Deus e as religiões", sobre o legado de Israel para a humanidade, e reforça o conceito-síntese de sua obra, a saber, que o homem é confortado, sobretudo, pelos seus paradoxos. Selecionei um breve trecho:

“A antiguidade ignorou Israel. E, não obstante, quantos elementos da tradição de Israel, que são hoje do patrimônio humano, poderiam sê-lo desde então! Tal, o livro de Jó, uma das pedras angulares do universo, que domina a 'Ilíada' e a tragédia grega, e nos apresenta, muito melhor que elas, o encontro matinal da sabedoria e da poesia na encruzilhada de seus caminhos. É um espetáculo saudável e solene ver esses eternos imbecis, o otimista e o pessimista, amesquinhados, ambos, desde a aurora dos tempos. A ironia dos grandes trágicos encontra no livro de Jó o seu desenlace místico: ao mistério não responde senão com o mistério, e Jó, consolado por enigmas, sente-se consolado. Símbolo profético, pois, onde o espírito que duvida não sabe mais que repetir: 'Não compreendo'; e o que sabe não pode senão replicar: 'Não, tu não compreendes'. E esta exprobração desperta, sempre, no fundo do coração, como uma esperança súbita, o sentimento que se quisera compreender.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Resumo de tudo

“Criticar os meios e as formas do conhecimento humano, por em dúvida a sua validade objetiva, seria absurdo, desprezível e hostil, se tal atitude se baseasse numa outra intenção além da de designar à nossa razão limites que ela não pode transpor sem incorrer numa negligência nas suas próprias funções”.

Trecho de "Passeio pela praia", primeira parte do capítulo VII de A montanha mágica, de Thomas Mann.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A utilidade do jornalismo

"Quanto aos jornais, defendei-vos deles tanto mais energicamente quanto mais constantes e indiscretos são os seus ataques. Convém saber o que os jornais contêm; mas é tão reduzido o conteúdo! E seria tão fácil informar-se dele, sem necessidade de se instalar em intermináveis sessões da preguiça! Em todo o caso, há horas mais adaptadas para a corrida às notícias do que a hora do trabalho. O trabalhador consciencioso deveria contentar-se com a crônica semanal ou bimensal duma revista, e recorrer aos jornais só quando lhe apontem algum artigo notável ou acontecimento grave".

Trecho de A vida do intelectual, do padre A. D. Sertillanges, redigido originalmente em, vejam só, 1920.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O grande segredo da análise literária

"No fundo, todo ideal estilístico não só cita normas quanto a maneira como as coisas devem ser ditas, mas também relativamente as próprias coisas que se nos permite dizer".

C. S. Lewis, na introdução de As cartas do inferno.

sábado, 25 de setembro de 2010

Um belo estilo conduz a belas ações

Outro trecho selecionado de A montanha mágica, outro discurso do humanista italiano Ludovico Settembrini:

"Settembrini perguntou se os primos já tinham ouvido falar do Sr; Brunetto, de Brunetto Latini, escrivão municipal de Florença, por volta de 1250, e autor de um livro sobre virtudes e vícios. Esse mestre fora o primeiro a esmerilar a cultura dos florentinos e a ensinar-lhes a oratória bem como a arte de dirigir a sua república conforme as regras da política. – Aí está, meus senhores! – exclamou Settembrini. – Aí está! – E passou a falar do “verbo”, do culto do verbo, da eloquência, que qualificou de triunfo da humanidade. Pois o verbo era a honra dos homens, e soe ele tornava a vida digna de seres humanos. Não somente o humanismo, mas também a humanidade em geral, toda dignidade humana, todo respeito pelos homens e toda estima que eles sentiam de si próprios, eram inseparáveis do verbo, e por conseguinte, da literatura. E dessa forma – prosseguia o italiano – achava-se também a política ligada a literatura, ou melhor: tinha a sua origem na aliança, na fusão da humanidade e literatura, já que a bela palavra gerava a bela ação. – Faz dois séculos – disse Settembrini – vivia no país dos senhores um velho poeta, um excelente conversador, que atribuía suma importância à beleza da caligrafia, porque, segundo a sua opinião, esta conduzia à beleza do estilo. Deveria ter ido um pouco mais longe e dizer que um belo estilo conduz a belas ações. – Pois, escrever bem já era quase pensar bem, e dali a agir bem não havia muita distância. Toda moralidade e todo aperfeiçoamento moral se derivava do espírito da literatura, desse pundonor humano que era ao mesmo tempo o espírito da humanidade e da política. Sim, tudo isso era uno e indivisível, era uma e a mesma força e ideia, e podia ser resumido num único termo. Qual era esse termo? Ora, ele se compunha de sílabas familiares cujo significado e cuja majestade os primos, sem dúvida, nunca haviam compreendido. Seu nome era: civilização! E ao pronunciar essa palavra, Settembrini ergueu a amarelada mãozinha direita como quem faz um brinde".

Há na música um elemento perigoso, senhores

Complemento minha tradução do texto Coltrane, Hendrix, Beethoven e Deus, do músico Brad Mehldau, com pequenos trechos selecionados de A montanha mágica, de Thomas Mann. No sanatório em Davos, o italiano Settembrini explica ao protagonista Hans Castorp suas noções sobre as propriedades místicas da música.

“E a música? O senhor não me perguntou se eu era amante da música? Bem, se o senhor usou a palavra “amante” não escolheu mal a expressão, porque ela tem um quê de frivolidade afetuosa. Pois é, estou de acordo. Sim senhor, sou amante da música, o que significa que a estime particularmente, assim como estimo e amo, por exemplo, a palavra, o veículo do espírito, o utensílio e o resplandecente arado do progresso... A música? Representa ela tudo o que existe de semi-articulado, de duvidoso, de irresponsável, de indiferente. O senhor talvez me objete que ela pode ser clara. Mas também a Natureza pode ser clara; também um arroio o pode ser, e que nos adianta isso? Não é essa a clareza verdadeira; é uma clareza sonhadora, despida de significação, uma clareza que a nada obriga nem chega a ter conseqüências; é perigosa porque induz a gente à complacência satisfeita... Suponhamos que a música tome ma atitude de magnanimidade. Bem, nesse caso, ela inflamará a nossa razão. Aparentemente a música é toda movimento, e contudo suspeito nela o quietismo. Permita que eu leve a minha tese ao exemplo: tenho contra a música uma antipatia de caráter político”.

“Mesmo assim, convém ponderar a ideia. A música é inestimável como meio supremo de produzir entusiasmo, como força que faz avançar e subir, mas só para pessoas cujos espíritos já estejam preparados para os seus efeitos. Porém, é indispensável que a literatura a preceda. Sozinha, a música não é capaz de levar o mundo avante”.

“O senhor definiu muito bem um fator incontestavelmente moral na natureza da música; a saber, que ela mede o curso do tempo de uma forma especial e cheia de vida, e assim lhe empresta vigilância, espírito e preciosidade. A música desperta o tempo; desperta a nós, para tirarmos do tempo um gozo mais refinado; desperta... e portanto é moral. A arte é moral na medida em que desperta. Mas que sucede, quando ela faz o contrário? Quando entorpece, adormenta, estorva a atividade e o progresso? Também disso a música é capaz; sabe perfeitamente agir como opiato. Uma influência diabólica, meus senhores! O opiato é uma obra do Diabo, porque causa apatia, estagnação, passividade, inatividade servil... Há na música um elemento perigoso, senhores. Insisto no fato de sua natureza ambígua. Não exagero declarar que ela é politicamente suspeita”.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

# editorial nº 026

Formalmente, esta é a última edição da Revista Wave. O que não significa que o site deixará de ser atualizado. O formato atual de edições, no entanto, não deve ser mantido. É preciso assumir que já não existia periodicidade alguma, e determinadas seções tem recebido tratamento, digamos, excessivamente diferenciado. A partir de agora, os textos serão publicados de maneira esparsa, sem regularidade definida.

Não é uma decisão permanente, e podemos eventualmente retornar ao formato tradicional, ou mesmo criar um novo planejamento para o site. Entendam que meu apreço pelos leitores que nos acompanharam nesses dois anos e meio é imensurável. Creio, porém, que as últimas edições da Revista Wave já refletem o quanto meus anseios e aspirações pessoais tornaram-se diferentes desde que projetei o site, em fevereiro de 2008. Agora, aos 23 anos, posso afirmar, sem pieguice, que sou, em termos intelectuais e espirituais, uma outra pessoa.

Minha relação com a prática jornalística – que era a base fundamental da concepção original da Revista Wave – deteriorou-se ao ponto do quase desprezo total. Procuro novas linguagens de expressão, e a literatura me parece a maior delas. A sistematização do jornalismo apenas me desgasta, e tenho buscado afastá-la de meus textos. Consequentemente, não me parece haver sentido em prosseguir com as antigas pretensões.

Peço a compreensão dos leitores. Vez ou outra, utilizarei o espaço dos editoriais para informá-los sobre possíveis novidades. Também peço que acompanhem o twitter da revista, e também meu blog pessoal. Não deixarei de escrever textos, ensaios, artigos, contos, o que seja, ainda que a exigência e a disciplina possam atrasar suas publicações. Mas sei que há todo um novo universo de debates e indagações longe do panorama jornalístico, e espero repassá-los a quem interessar.

Aquele abraço, e que Deus nos abençoe

Daniel Faria
Editor-chefe da Revista Wave

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Amore bambino



Deborah Salvatrice Blando, então com 24 anos. Nascida em Sant'Agata di Militello, filha de pai italiano e mãe brasileira descendente de ucranianos. Vídeo de 1993, quando era a mulher mais linda do mundo.

sábado, 7 de agosto de 2010

A monotonia do realismo

“Em resumo, as esquisitices chocam apenas as pessoas comuns. É por isso que as pessoas comuns tem uma vida muito mais instigante; enquanto as pessoas esquisitas estão sempre se queixando da chatice da vida. É por isso também que os novos romances desaparecem tão rapidamente, ao passo que os velhos contos de fadas duram para sempre. Os velhos contos de fadas fazem do herói um ser humano normal; suas aventuras é que são surpreendentes. Elas o surpreendem porque ele é normal. Mas no romance psicológico moderno o herói é anormal; o centro não é central. Consequentemente, as mais loucas aventuras não conseguem afetá-lo de forma adequada, e o livro é monótono. Pode-se criar uma história a partir de um herói entre dragões, mas não a partir de um dragão entre dragões. O conto de fadas discute o que um homem sensato fará num mundo de loucuras. O romance realista sóbrio de hoje discute o que um completo lunático fará num mundo sem graça”.

G. K. Chesterton, em O Maníaco, ensaio presente no livro Ortodoxia.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

# editorial nº 025

Caso esnobe fosse, estaria aqui a citar Millôr Fernandes – “o futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia” – para usar a Copa do Mundo como justificativa do atraso em publicar a vigésima-quinta edição da Revista Wave. Afinal, quem se importaria em ler sobre as Variações Goldberg, o cinema de Carlos Reichenbach ou traduções de poema de Emily Dickinson em pleno mês de junho, em ano de Copa?

Não, não se pode jamais culpar o descaso dos eventuais leitores por problemas de ordem, digamos, estruturais. Na verdade, foram questões profissionais, amorosas e acadêmicas deste fim de semestre que tornaram minhas horas livres um artigo de luxo, e assim como o rei inglês Carlos Stuart, andei perdendo a cabeça, graças a esses obsessivos republicanos que não acreditam no poder divino da preguiça.

Não à toa, para completar esta edição tive que readaptar dois trabalhos feitos para a UNESP e postá-los publicamente agora. O primeiro deles é a entrevista realizada com o jornalista Alex Antunes, o “Nelson Motta do pós-punk” e uma das mais carismáticas figuras do jornalismo cultural brasileiro. Alex é um desconstruidor, uma vida-síntese contrária àquilo que ele classifica constantemente como “realidade consensual”. Vale sempre a pena ouvi-lo/lê-lo.

O outro trabalho é uma resenha para o livro Casei Com um Comunista, de Philip Roth, que ao lado da resenha de Os três estigmas de Palmer Eldritch, de Philip K. Dick, demonstra uma proposta já tradicional da Revista Wave: indicar valorosas obras literárias para seu público, inéditas ou não. Os dois escritores, aliás, são citados na entrevista com Alex como autores de livros que leem o leitor e o tornam melhor. “Você acontece dentro do texto ao mesmo tempo em que o texto acontece dentro de você”.

Esperamos – e trabalharemos cada vez mais para isso – que, em algum momento, possamos atuar da mesma maneira com os nossos leitores. Em época de Copa do Mundo ou não. E fica meu palpite: acredito que a seleção da Alemanha, dos jovens craques Özil e Müller, será a campeã deste ano. Torcerei para isso.

Aquele abraço, e que Deus nos abençoe.

Daniel Faria
Editor-chefe da Revista Wave

terça-feira, 11 de maio de 2010

Causa perdida

- Arte como arma? – disse ele, a palavra “arma” carregada de desprezo e ela mesmo uma arma. – Arte como a tomada da posição correta com relação a tudo? Arte como o advogado das coisas boas? Quem foi que ensinou tudo isso a você? Quem ensinou que arte são slogans? Quem ensinou que a arte está a serviço do “povo”? A arte está a serviço da arte, senão não existe arte nenhuma digna da atenção de ninguém. Qual é a razão para escrever literatura séria, senhor Zuckermann? Derrotar os inimigos do controle de preços? A razão para escrever literatura séria é escrever literatura séria. Você quer se rebelar contra a sociedade? Vou lhe dizer como fazer isso: escreva bem. Quer abraçar uma causa perdida? Então não lute em favor da classe trabalhadora. Eles vão se dar muito bem na vida. Vão se empanturrar de carros Plymouth até seu coração se fartar. O trabalhador vai dominar todos nós – da estupidez deles, vai jorrar a lama que é o destino cultural deste país vulgar. Em breve teremos neste país algo muito pior do que o governo dos camponeses e operários. Você quer uma causa perdida para defender? Então lute pela palavra. Não a palavra bombástica, a palavra inspiradora, não a palavra pró-isso e anti-aquilo, não a palavra que alardeia para as pessoas respeitáveis que você é um sujeito maravilhoso, admirável, compassivo, sempre do lado dos oprimidos e humilhados. Nada disso, lute sim pela palavra que afirma aos poucos alfabetizados condenados a viver na América que você está do lado da palavra! Nada produz um efeito mais sinistro na arte do que o desejo do artista de provar que ele é bom. A terrível tentação do idealismo! Você precisa alcançar o domínio sobre o seu idealismo, sobre a sua virtude, bem como sobre o seu vício, o domínio estético sobre tudo aquilo que o impele a escrever, em primeiro lugar – a sua indignação, a sua política, a sua dor, o seu amor! Comece a pregar e tomar posições, comece a ver a sua perspectiva como superior às outras, e você é inútil como artista, inútil e ridículo. Por que escreve essas proclamações? É por que olha o mundo em volta e fica “chocado”? É por que olha o mundo em volta e fica “comovido”? As pessoas sucumbem muito facilmente e fraudam os seus sentimentos. Elas querem ter sentimentos prontos, e então “chocar-se” e “comover-se” são os mais fáceis. Os mais burros. Exceto em casos raros, senhor Zuckermann, o choque é sempre falsidade. Proclamações. Na arte não há lugar para proclamações! Tire esta sua adorável merda do meu escritório, por favor.

Philip Roth, em Casei com um Comunista