Mais de uma vez, a querida
Van Prates aconselhou-me a ler
Os Realistas, do crítico inglês C. P. Snow, livro que retrata a vida e a obra de oito dos mais importantes romancistas da literatura universal. Sempre evitei procurar descobrir maiores detalhes da vida pessoal de um escritor antes de conhecer sua obra com profundidade. Jornalistas culturais, biógrafos e mesmo acadêmicos respeitados costumam usar-se da intimidade do artista, com toda ênfase possível às suas preferências sexuais e políticas, a fim de recriar uma imagem do escritor que, inconscientemente ou não, acabamos incorporando à nossa primeira avaliação de sua obra.
Detalhes desimportantes da biografia de um artista (como a informação de que Kafka perdeu a virgindade aos vinte anos) afetam, de uma maneira ou outra, a análise de um leitor mais ingênuo. Ou estarei sendo rígido? Sei que é praticamente impossível desvincular a imagem histórica que temos de Shakespeare ou Dante ao lermos suas obras, mas considero prejudicial que alguém leia, por exemplo, O Retrato de Dorian Grey com a pré-concepção de estar diante do livro de um escritor homossexual, quando as preferências íntimas de Oscar Wilde nada interferem na qualidade estética e literária de um dos grandes romances da história da literatura inglesa.
Em um de meus trechos preferidos de O Fantasma Sai de Cena, de Philip Roth, Amy Bellete, amante do falecido escritor E. I. Lonoff, o mentor intelectual do protagonista Nathan Zuckerman, escreve uma carta para o editor do caderno literário do The Times. Selecionei alguns trechos:
“Antigamente as pessoas inteligentes usavam a literatura para pensar. Esse tempo passou.”
“Hoje em dia, a maneira mais comum de utilizar a literatura, tal como se vê nas páginas de cultura dos jornais mais esclarecidos e nos departamentos de letras das universidades, é tão avessa aos objetivos da literatura criativa e às compensações que ela proporciona ao leitor de mente aberta, que seria melhor se a literatura não tivesse mais nenhuma utilidade pública.”
“O seu jornalismo cultural não passa de fofocas de tabloide disfarçadas de interesse pelas artes.”
“É impressionante a importância que os jornalistas culturais dão às barreiras da privacidade quando o que está em jogo é o romance.”
“[Com ironia] O escritor passa anos trabalhando no texto, aposta tudo que tem no seu trabalho, escreve cada frase sessenta e duas vezes e no entanto não tem nenhuma consciência literária, compreensão nem meta geral. Tudo o que o escritor constrói meticulosamente, juntando trechos e detalhes, não passa de um truque, de uma mentira. O escritor não tem nenhuma motivação literária. Não tem interesse em representar a realidade. Suas motivações são sempre pessoais, e geralmente vis.”
“Se você disser a um jornalista cultural: ‘Dê atenção apenas ao conto em si”, ele não terá o que dizer.
“Se eu tivesse um pouco de poder que tinha Stálin, eu não o desperdiçaria silenciando os escritores criativos. Eu silenciaria aqueles que escrevem sobre os escritores criativos. (...) Eu deixaria os leitores a sós com os livros, para que tirassem suas próprias conclusões”.
Entendo, obviamente, a necessidade documental de se reconstituir a biografia dos grandes escritores da literatura. Um homem apenas é grandioso quando se torna histórico. Mas há de se exercer tal prática com responsabilidade e prudência. Como leitor, procuro sempre discernir a ideologia pessoal da obra do artista. Ezra Pound era ligado ao partido fascista de Benito Mussolini, mas em quais aspectos isso interfere na qualidade lírica de Os Cantos? Um fato como esse é repulsivo e tem grande validade na documentação histórica do poeta, mas a análise de sua obra não deve se ater exclusivamente a isso. Considero, por exemplo, um grave erro de conduta alguém ler a maravilhosa Biografia de James Joyce, escrita por Richard Ellmann, antes de ler, ao menos, O Retrato do Artista Quando Jovem, um dos mais famosos Bildungsroman, essencial na compreensão da obra do irlandês.
A carta de Amy Bellete sugere que a obsessão com a vida de um escritor negligencia a real utilidade da literatura, que é a reflexão subjetiva. É esclarecedor saber que Kafka teve um relacionamento angustiante com o pai, mas acreditar que O Processo, O Castelo e A Metamorfose são meramente obras representativas de tal relação e só foram criadas porque Kafka cresceu sob uma educação opressora é desprezar a genialidade do caráter universal de seus livros. Supor que um escritor brilhante como Kafka seja movido pela necessidade e urgência de expressar suas mais íntimas emoções e traumas é de uma ingenuidade atroz.
C. P. Snow, que, além de crítico, também é romancista, comete alguns desses equívocos. Como adquiri o livro essa semana, li apenas os retratos de escritores que tenho maior familiaridade: os russos Dostoievski e Tolstoi e o francês Proust. Stendhal, Balzac, Dickens, Henry James e o espanhol Galdós completam os oito perfilados. Há várias deduções (como insistir na típica ideia da psicanálise de que a infância de Dostoievski foi deveras deprimente e que isso teria influenciado sua obra posteriormente, ou tentar desmoralizar Tolstoi com uma abundância de suposições a respeito de sua vida sexual) não-comprovadas, mas, na maior parte do que li, o livro é bem instrutivo para quem tem algumas aspirações literárias. Saber que Dostoievski, precisando de dinheiro com urgência, escreveu algumas de suas obras, como O Idiota e O Jogador, com prazos curtíssimos de entrega para seus editores, é um exemplo de fato que interfere efetivamente na análise e apreciação da obra, porque precisamos compreender que a revisão técnica e o apuro na construção de seus personagens foram realizados sob intensa pressão, prejudicando (ou não) o resultado final.
Há, realmente, histórias deliciosas no livro de Snow. Mas são apenas as opiniões pessoais de Snow, segundo suas referências de vida, que retratam esses oito romancistas - conhecidos em todo mundo por encerrarem lições das mais profundas, completas e surpreendentes do espírito humano -, e não uma verdade radical e imutável. Como estudante de jornalismo, aprendi a notar meandros de persuasão que escritores factuais utilizam para exercitar percepções particulares. Criam uma teoria e, posteriormente, manuseiam os fatos para comprová-la. Não é irônico que a obra literária tenha maior caráter de observação e análise social, política e espiritual do que o jornalismo, este último supostamente tão preocupado com a veracidade e a objetividade?
Enfim, aconselho sempre a leitura da literatura em primeiro lugar, e apenas depois as biografias, as críticas e as discussões acadêmicas. Em meu
ensaio sobre a sinceridade religiosa, publicado na última edição da
Revista Wave, escrevi que as notícias jornalísticas são efêmeras, repetitivas e, mais do que nunca, editáveis e dignas de revisões, enquanto
Hamlet, a
Bíblia,
Guerra e Paz e as Variações Goldberg são criações eternas. Como a revista não tem compromissos com o
hardnews ou com falsas polêmicas, procuro sempre publicar textos que, ao menos, se propõem a estimular alguma reflexão no leitor. Mas, ainda assim, o rigor factual e o mínimo de julgamentos precipitados são práticas que pretendo sempre obedecer em meus artigos e reportagens.
A principal ressalva que faço a textos como os de C. P. Snow é a mesma que faço a todo mundo que se acredita capaz de emitir opiniões a respeito de qualquer coisa: nunca devemos usar nossas próprias referências de comportamentos sexuais, políticos ou religiosos para classificar um caráter alheio de exótico ou deplorável. É uma prática injusta e incoerente e, a meu ver, o julgamento precipitado é tudo o que a literatura se propõe a evitar.
P.S.: Tinha a intenção de transformar as observações acima em um artigo para a Revista Wave, usando a recém-lançada biografia de Clarice Lispector, lançada pelo jornalista norte-americano Benjamin Moser, como mote. Mas a preguiça e minha pouca aderência a obra da escritora me impediram de levar a ideia adiante. Não é tudo muito vago e metafísico demais em Clarice, uma suposta profundidade que, no fim, acaba não revelando nada? Talvez seja feminino e sensível demais para mim, mas não me considerem misógino, meninas: agrado-me sobremaneira com Dorothy Parker, Emily Dickinson e Virginia Woolf, dentre outras brilhantes escritoras. Clarice talvez seja tão superestimada porque brilhou em uma área pouco desenvolvida da literatura nacional, que é o romance psicológico. Mas nunca me empolgou de verdade. Aguardo e aceito argumentos contrários.