quinta-feira, 1 de julho de 2010

# editorial nº 025

Caso esnobe fosse, estaria aqui a citar Millôr Fernandes – “o futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia” – para usar a Copa do Mundo como justificativa do atraso em publicar a vigésima-quinta edição da Revista Wave. Afinal, quem se importaria em ler sobre as Variações Goldberg, o cinema de Carlos Reichenbach ou traduções de poema de Emily Dickinson em pleno mês de junho, em ano de Copa?

Não, não se pode jamais culpar o descaso dos eventuais leitores por problemas de ordem, digamos, estruturais. Na verdade, foram questões profissionais, amorosas e acadêmicas deste fim de semestre que tornaram minhas horas livres um artigo de luxo, e assim como o rei inglês Carlos Stuart, andei perdendo a cabeça, graças a esses obsessivos republicanos que não acreditam no poder divino da preguiça.

Não à toa, para completar esta edição tive que readaptar dois trabalhos feitos para a UNESP e postá-los publicamente agora. O primeiro deles é a entrevista realizada com o jornalista Alex Antunes, o “Nelson Motta do pós-punk” e uma das mais carismáticas figuras do jornalismo cultural brasileiro. Alex é um desconstruidor, uma vida-síntese contrária àquilo que ele classifica constantemente como “realidade consensual”. Vale sempre a pena ouvi-lo/lê-lo.

O outro trabalho é uma resenha para o livro Casei Com um Comunista, de Philip Roth, que ao lado da resenha de Os três estigmas de Palmer Eldritch, de Philip K. Dick, demonstra uma proposta já tradicional da Revista Wave: indicar valorosas obras literárias para seu público, inéditas ou não. Os dois escritores, aliás, são citados na entrevista com Alex como autores de livros que leem o leitor e o tornam melhor. “Você acontece dentro do texto ao mesmo tempo em que o texto acontece dentro de você”.

Esperamos – e trabalharemos cada vez mais para isso – que, em algum momento, possamos atuar da mesma maneira com os nossos leitores. Em época de Copa do Mundo ou não. E fica meu palpite: acredito que a seleção da Alemanha, dos jovens craques Özil e Müller, será a campeã deste ano. Torcerei para isso.

Aquele abraço, e que Deus nos abençoe.

Daniel Faria
Editor-chefe da Revista Wave