sábado, 25 de setembro de 2010

Há na música um elemento perigoso, senhores

Complemento minha tradução do texto Coltrane, Hendrix, Beethoven e Deus, do músico Brad Mehldau, com pequenos trechos selecionados de A montanha mágica, de Thomas Mann. No sanatório em Davos, o italiano Settembrini explica ao protagonista Hans Castorp suas noções sobre as propriedades místicas da música.

“E a música? O senhor não me perguntou se eu era amante da música? Bem, se o senhor usou a palavra “amante” não escolheu mal a expressão, porque ela tem um quê de frivolidade afetuosa. Pois é, estou de acordo. Sim senhor, sou amante da música, o que significa que a estime particularmente, assim como estimo e amo, por exemplo, a palavra, o veículo do espírito, o utensílio e o resplandecente arado do progresso... A música? Representa ela tudo o que existe de semi-articulado, de duvidoso, de irresponsável, de indiferente. O senhor talvez me objete que ela pode ser clara. Mas também a Natureza pode ser clara; também um arroio o pode ser, e que nos adianta isso? Não é essa a clareza verdadeira; é uma clareza sonhadora, despida de significação, uma clareza que a nada obriga nem chega a ter conseqüências; é perigosa porque induz a gente à complacência satisfeita... Suponhamos que a música tome ma atitude de magnanimidade. Bem, nesse caso, ela inflamará a nossa razão. Aparentemente a música é toda movimento, e contudo suspeito nela o quietismo. Permita que eu leve a minha tese ao exemplo: tenho contra a música uma antipatia de caráter político”.

“Mesmo assim, convém ponderar a ideia. A música é inestimável como meio supremo de produzir entusiasmo, como força que faz avançar e subir, mas só para pessoas cujos espíritos já estejam preparados para os seus efeitos. Porém, é indispensável que a literatura a preceda. Sozinha, a música não é capaz de levar o mundo avante”.

“O senhor definiu muito bem um fator incontestavelmente moral na natureza da música; a saber, que ela mede o curso do tempo de uma forma especial e cheia de vida, e assim lhe empresta vigilância, espírito e preciosidade. A música desperta o tempo; desperta a nós, para tirarmos do tempo um gozo mais refinado; desperta... e portanto é moral. A arte é moral na medida em que desperta. Mas que sucede, quando ela faz o contrário? Quando entorpece, adormenta, estorva a atividade e o progresso? Também disso a música é capaz; sabe perfeitamente agir como opiato. Uma influência diabólica, meus senhores! O opiato é uma obra do Diabo, porque causa apatia, estagnação, passividade, inatividade servil... Há na música um elemento perigoso, senhores. Insisto no fato de sua natureza ambígua. Não exagero declarar que ela é politicamente suspeita”.