Outro trecho selecionado de A montanha mágica, outro discurso do humanista italiano Ludovico Settembrini:
"Settembrini perguntou se os primos já tinham ouvido falar do Sr; Brunetto, de Brunetto Latini, escrivão municipal de Florença, por volta de 1250, e autor de um livro sobre virtudes e vícios. Esse mestre fora o primeiro a esmerilar a cultura dos florentinos e a ensinar-lhes a oratória bem como a arte de dirigir a sua república conforme as regras da política. – Aí está, meus senhores! – exclamou Settembrini. – Aí está! – E passou a falar do “verbo”, do culto do verbo, da eloquência, que qualificou de triunfo da humanidade. Pois o verbo era a honra dos homens, e soe ele tornava a vida digna de seres humanos. Não somente o humanismo, mas também a humanidade em geral, toda dignidade humana, todo respeito pelos homens e toda estima que eles sentiam de si próprios, eram inseparáveis do verbo, e por conseguinte, da literatura. E dessa forma – prosseguia o italiano – achava-se também a política ligada a literatura, ou melhor: tinha a sua origem na aliança, na fusão da humanidade e literatura, já que a bela palavra gerava a bela ação. – Faz dois séculos – disse Settembrini – vivia no país dos senhores um velho poeta, um excelente conversador, que atribuía suma importância à beleza da caligrafia, porque, segundo a sua opinião, esta conduzia à beleza do estilo. Deveria ter ido um pouco mais longe e dizer que um belo estilo conduz a belas ações. – Pois, escrever bem já era quase pensar bem, e dali a agir bem não havia muita distância. Toda moralidade e todo aperfeiçoamento moral se derivava do espírito da literatura, desse pundonor humano que era ao mesmo tempo o espírito da humanidade e da política. Sim, tudo isso era uno e indivisível, era uma e a mesma força e ideia, e podia ser resumido num único termo. Qual era esse termo? Ora, ele se compunha de sílabas familiares cujo significado e cuja majestade os primos, sem dúvida, nunca haviam compreendido. Seu nome era: civilização! E ao pronunciar essa palavra, Settembrini ergueu a amarelada mãozinha direita como quem faz um brinde".
"Settembrini perguntou se os primos já tinham ouvido falar do Sr; Brunetto, de Brunetto Latini, escrivão municipal de Florença, por volta de 1250, e autor de um livro sobre virtudes e vícios. Esse mestre fora o primeiro a esmerilar a cultura dos florentinos e a ensinar-lhes a oratória bem como a arte de dirigir a sua república conforme as regras da política. – Aí está, meus senhores! – exclamou Settembrini. – Aí está! – E passou a falar do “verbo”, do culto do verbo, da eloquência, que qualificou de triunfo da humanidade. Pois o verbo era a honra dos homens, e soe ele tornava a vida digna de seres humanos. Não somente o humanismo, mas também a humanidade em geral, toda dignidade humana, todo respeito pelos homens e toda estima que eles sentiam de si próprios, eram inseparáveis do verbo, e por conseguinte, da literatura. E dessa forma – prosseguia o italiano – achava-se também a política ligada a literatura, ou melhor: tinha a sua origem na aliança, na fusão da humanidade e literatura, já que a bela palavra gerava a bela ação. – Faz dois séculos – disse Settembrini – vivia no país dos senhores um velho poeta, um excelente conversador, que atribuía suma importância à beleza da caligrafia, porque, segundo a sua opinião, esta conduzia à beleza do estilo. Deveria ter ido um pouco mais longe e dizer que um belo estilo conduz a belas ações. – Pois, escrever bem já era quase pensar bem, e dali a agir bem não havia muita distância. Toda moralidade e todo aperfeiçoamento moral se derivava do espírito da literatura, desse pundonor humano que era ao mesmo tempo o espírito da humanidade e da política. Sim, tudo isso era uno e indivisível, era uma e a mesma força e ideia, e podia ser resumido num único termo. Qual era esse termo? Ora, ele se compunha de sílabas familiares cujo significado e cuja majestade os primos, sem dúvida, nunca haviam compreendido. Seu nome era: civilização! E ao pronunciar essa palavra, Settembrini ergueu a amarelada mãozinha direita como quem faz um brinde".