sexta-feira, 4 de março de 2011

A justificativa da chatice

Eu não gosto muito de ser opaco, de parecer que tem alguma coisa que nem eu sei o que é, e que ninguém sabe o que é. Eu não gosto. Então, assim, eu me autodesmistifico muito. Eu acho um pouco angustiante a pessoa ser, parecendo que a pessoa é possuída por alguma coisa de que ela própria não tem consciência, de que os outros não podem entender. Não quero ser isso. Bob Dylan quer ser isso, eu não quero. Mesmo porque as pessoas usam isso para impor poder abusivo sobre as outras. É uma questão, também, de necessidade de justiça. Não gosto de obscurantismo, não gosto de me deixar enganar e não gosto de enganar os outros. É isso que eu acho, que eu chamo de lúcido. Eu sou do sol, eu quero ser lúcido e feliz. É muito difícil, mas eu fico fazendo esforço, tentando. Prefiro me explicar. Pessoas de outros países, que vêem o filme do Pedro Almodóvar, eu estou cantando Cucurucu Paloma. Aí, a pessoa fala assim: “Puxa, mas é uma coisa mágica!”. E depois a pessoa me conhece, me vê conversando e, às vezes, conversa. Muitas pessoas ficam assim, meio, parece que decepcionadas. Prefeririam que eu fosse uma pessoa inescrutável, chegasse perto de mim e eu tivesse aquilo como, sabe? Como uma coisa misteriosa. Gostariam de encontrar alguém que quase não soubesse falar, que fosse tomado por aquela coisa, mas eu não sou essa pessoa. Eu sou eu, esse cara aqui, que está aqui!

Caetano, no documentário Coração Vagabundo [2009, direção de Fernando Grostein Andrade]. Engraçado. No mesmo dia, vi Don’t Look Back, documentário sobre a turnê londrina de 1965 do citado Dylan e percebi como há dois modos de chatice incongruentes: o chato que é chato por falar demais de si mesmo, e o chato que é chato por falar demais.

A Revista Wave não existe mais.