terça-feira, 15 de março de 2011

Lucas 18:17

“Não há terreno impossível para o Ciclista Urbano”. Inicia-se assim Mãos de Cavalo, segundo romance do escritor gaúcho Daniel Galera. “Não há terreno impossível”. A descrição do acidente de bicicleta do “Ciclista Urbano”, um guri de dez anos, próximo à avenida Guaíba, em Porto Alegre, provoca-me a lembrança da indestrutibilidade da infância. Pouco a ver com o ímpeto desafiador da adolescência. Falo da sensação de impossibilidade da tragédia que é — ou assim comigo foi — tão própria aos dez, onze anos de idade. No livro de Galera, o pequeno ciclista se estropia todo em sua Caloi aro 20 de freio de pé após colidir com uma calçada. Segundos antes, ele possuía tamanha confiança em si. Não tinha como haver terreno impossível.

Quando criança, exerci minha fé de maneira antiteológica algumas vezes. Numa dessas ocasiões, decidi atravessar, em minha Shimano de 21 marchas, uma das ruas mais íngremes de Gália, a cidade onde nasci, sem colocar as mãos no guidom. E mais, de olhos fechados. E, ainda mais, com as mãos agarradas firmemente num crucifixo que usava então — escondido, porém, por ser um objeto de uso tradicionalmente católico, repreendido pela minha igreja, batista. Ao término do quarteirão, um cruzamento de vias, de movimentação constante. Embora a preferência a mim pertencesse, há, nas cidades pequenas do interior, certo desleixo dos condutores quanto a placas de PARE. Digo isso para acentuar que, por trás do teor infantil do desafio a que me propunha, havia algum risco, e não duvido que poucos teriam coragem — ou a fé — para um intento desses. Mas Deus me salvaguardaria de qualquer mal.

Aprumei-me no topo da rua, nome oficial rua José Garib, que a cidade conhece como avenida Walter Gago, porque morava antigamente ali um famigerado Walter, que, como é de se presumir, possuía problemas de dicção. Enfim. Munido da fé, comecei a mover os pedais, afixei as pernas, agarrei o crucifixo com as mãos e fechei os olhos. O percurso não durou mais que trinta segundos, se tanto. Confiante, em nenhum momento hesitei. Concluí, venturoso, a minha prova de fidelidade a Deus.

Após o menino de seu livro cair da bicicleta e se machucar, Galera escreve: “Ele não é mais o Ciclista Urbano. Agora é apenas um guri de dez anos”. Quando, infantilmente, assinei meu contrato de fidelidade a Deus ao cruzar uma rua movimentada com as mãos distantes do freio e do guidom, vi em mim não a fé por vezes tão racional do indivíduo que hoje sou, com 24 anos completados amanhã, dia 16. Vi em mim o distanciamento do medo, a improbabilidade de que acontecesse o erro. Como conceber, aos dez anos, que seria possível eu me machucar?

Anos depois, por ocasiões de natureza diversa, as quais não pretendo expor no momento, ouvi minha mente se perguntar: O medo aniquila a fantasia? Creio que a idade adulta sobreponha a asfixia da realidade sobre os prazeres da imaginação. Algo óbvio, peço desculpas. Mas questionei-me hoje: há tempo para encontrar-se com Deus ao cruzar uma avenida movimentada? E, mais importante, há coragem — ou falta de medo, que me parece mais exato — de indagar pela existência dele, de requerer dele alguma exposição, digamos, concreta, ainda que pareça paradoxal exigir concretude daquele que não se vê, não se toca, não se constitui em forma física? Oh, quanto tempo mais de cartórios, escritórios de contabilidade, bancos e saguões de espera para estar eu apto a integrar vossas fileiras, homens de pequena fé?

Tenho reservas quanto a reclamar das provações da idade adulta. Há quatro anos assim procedo. Leio, no momento, As vidas de Dubin, de Bernard Malamud, e causa-me tristeza a solidão serena dos personagens do livro, todos com mais de cinquenta anos. São personagens de ficção? São, mas são personagens com a idade de meus pais. Se literatura é empatia — é espelho, portanto, retorcido ou ornamentado, mas espelho —, há de se apreender, por menor que seja o reconhecimento, a angústia. Ela se encontra presente em todas as obras clássicas: pense em alguém mais angustiado que Pedro Bezukhov, por exemplo. Hamlet, talvez? A indefinição de caráter, a irregularidade moral, o sujeito prensado na dúvida: tal é o homem, tal é o modo que a literatura há de retratá-lo.

Mas escrevo sobre o medo. Apressarei a conclusão: dia desses, decidi subir numa bicicleta novamente, após anos. Desde aquela vez, li vários tratados teológicos, desenvolvi métodos de estudos espirituais, considero-me um cristão mais completo, se este é o termo que se deve utilizar. Após uns cem metros numa rua plaina, numa vizinhança semideserta, com os braços tensionados, as mãos pressionando os freios a todo instante, desisti de meu intento. Tive medo de cair.