Quando se fala de "salvação" hoje em dia, nos círculos em que esse assunto ainda é tratado, o conceito é quase sempre associado a garantir o céu depois da morte. Uma pessoa é "salva" quando Deus a conta entre aqueles que serão recebidos em sua presença por ocasião da morte ou em algum momento depois dela. Esse uso dos termos "salvação" e "salvo" priva a terminologia do sentido geral de libertação que ela apresenta na Bíblia como um todo.
Essa perda é decorrente não apenas de uma obsessão de longa data com o perdão dos pecados e o controle sobre o perdão como os únicos elementos verdadeiramente essenciais, mas também do sucesso dos evangélicos em enfatizar, nos últimos séculos, a importância fundamental do perdão.
Se acrescentamos a ideia de que o perdão é estritamente uma questão do que alguém crê (ou professa crer), temos a receita para o atual cristianismo consumista sem discipulado que nossa geração recebeu como herança.
Se, no entanto — sem negarmos, de maneira alguma, a importância essencial da crença correta e do perdão dos pecados —, entendermos a "fé salvadora" como confiança em Jesus Cristo, em sua pessoa como um todo, e não apenas em parte daquilo que ele fez ou disse, veremos a salvação como algo que liberta o discípulo, a pessoa como um todo, e a conduz à vida plena no reino de Deus. Isso inclui a transformação interior progressiva do cristão, não como condição para entrar no céu — salvação no sentido comum —, mas como parte natural de um todo que também abrange uma nova vida, um crescimento espiritual constante e a entrada no céu como resultado natural e não como foco central. A libertação será, de fato, uma cura dupla da enfermidade do pecado, livrando-nos da ira e, ao mesmo tempo, tornando-nos puros.
Essa libertação é graça em todos os sentidos. É o dom da vida num relacionamento constante e interativo com o Senhor, Salvador e Mestre vivo. Como o próprio Jesus disse: "Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17.3). No sentido bíblico, o "conhecimento* é um relacionamento interativo. É o relacionamento redentor do discípulo com o mestre, no qual o favor imerecido é recebido desde os primeiros estágios de arrependimento e perdão até as dádivas mais avançadas de visão, caráter, serviço e poder (At 6.8). A formação espiritual é simplesmente o processo pelo qual "[crescemos], porém, na graça [certamente não no perdão!] e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (2Pe 3.l8).
Trecho de A grande omissão, de Dallas Willard